Síndrome do sotaque estrangeiro

A síndrome do sotaque estrangeiro (foreign accent syndrome) é uma síndrome rara, em que os pacientes são afetados na sua fala de tal maneira que quem a percepciona tem a idéia que fala sua língua nativa com sotaque estrangeiro. Alguns autores acreditam que ela pode ser provocada por isquemias cerebrais, hemorragias ou traumas.

O primeiro caso registrado foi o de uma mulher atingida durante um bombardeio na Noruega, em 1941, após um ataque aéreo sobre Oslo (Noruega), durante a segunda guerra mundial.

Segundo a literatura consultada a mulher sofreu traumatismo craniano que lesionou seu hemisfério cerebral esquerdo e a partir daí ela passou a falar norueguês com sotaque alemão. O trauma provocou-lhe hemiplegia à direita, convulsão e afasia de broca, a qual se caracteriza por grande dificuldade em falar, porém a compreensão da linguagem encontra-se preservada.

O caso dessa mulher Noruega, foi acompanhado pelo Neurologista Monrad-Krohn, que descreveu e publicou a Síndrome, em 1947.

Alguns autores comentam que dentro de um ano a linguagem da mulher melhorou, mas seu discurso tinha ritmo e melodia alterados sugerindo um sotaque estrangeiro.

Miller (2010) – neurologista e professor da Universidade de Newcastle, defende que grande parte das pessoas se queixa do sintoma por poucas semanas ou meses. O autor acrescenta que apenas cerca de 100 casos já foram reportados na literatura científica, contudo ele acredita que ela seja bem mais comum e que os casos podem estar sendo sub-notificados.

No Brasil, Bertolucci (2010), acredita que haja apenas 12 casos relatados na literatura, por isso ressalta a importância de que não só a população, mas a própria comunidade médica receba mais informações sobre a doença.

OUTROS CASOS REGISTRADOS
Em matéria publicada no site WWW.formadoresdeopiniao.com.br, Leite (2010) lista outros casos que ocorreram em 2001, 2006 e 2010, os quais dizem respeito, a um jovem brasileiro e duas mulheres inglesas. Os referidos casos serão transcritos a seguir:

Em 2001, Freitas atendeu a um jovem, acometido de hemorragia cerebral provocada por uma malfor-mação. “Quando eu o examinei pela primeira vez, pensei que fosse estrangeiro. Fizemos uma filmagem dele respondendo a várias perguntas e mostramos a 10 pessoas. Quase todas achavam que ele não fosse brasileiro”. O mais interessante é que um achou que ele fosse americano, outro que fosse espanhol, outro alemão. Ou seja, a síndrome não causa um sotaque típico, mas a sensação de que o paciente está falando um sotaque”. O caso clínico do brasileiro foi publicado pela revista científica European Neurology, em 2004.

Em 2006, a inglesa Lynda Walker, 60 anos, foi diagnosticada com a síndrome depois de sofrer um enfarte. Ao acordar, depois do tratamento de urgência, a moradora de Newcastle descobriu que estava falando com sotaque jamaicano. “Eu não me sinto a mesma pessoa. Não havia notado o sotaque, mas dei-me conta de como soava quando meu terapeuta me mostrou uma fita das nossas conversas. Fiquei devastada”, contou, na época, à versão eletrônica do jornal The Times.

Em 2010, a técnica em informática Sarah Colwill, 35 anos, teve uma grave crise de enxaqueca. “A telefonista e os paramédicos que me atenderam (quando chamou a ambulância) comentaram que eu estava com um sotaque chinês, apesar de eu nunca ter ido à China e ter vivido toda a minha vida no sul da Inglaterra”, contou Sarah, que mora em Plymouth, a jornais britânicos. Ela hoje está sendo tratada por fonoaudiólogos para tentar perder a pronúncia chinesa. “Estou falando em um tom muito mais agudo, desafinado. Quando ligo para meus amigos, muitos batem o telefone na minha cara pensando que estou passando trote”.

CARACTERÍSTICAS
Ainda conforme sugere Leite (2010), as pessoas que são portadoras da síndrome, geralmente apresentam as seguintes características:
a) falam com sotaque estrangeiro ou diferente, no qual nunca falara antes;
b) o paciente pode nem ter tido contato algum com alguém proveniente de onde tal sotaque é comum; e
c) não há qualquer razão social, psicológica ou psiquiátrica para adotar a forma alterada da fala.
Consoante as causas da doença o mesmo autor menciona que há uma gama de condições neurocomportamentais e, dentre elas estão: a depressão, o transtorno bipolar, a esquizofrenia e o delírio (tem ligações com o sotaque alterado). Também acrescenta que grande parte dos casos relatados sobre a síndrome do sotaque estrangeiro tem raiz neurológica.

TRATAMENTO
O tratamento psiquiátrico deve contemplar intervenções psicoterápicas e fonoaudiológicas, além do uso de psicofármacos, conforme os sintomas predominantes.
O tratamento psicológico pode ser feito para ajudar o portador da síndrome do sotaque estrangeiro a retomar sua autoestima e sua identidade.
Quanto à fonoaudiologia, esta auxiliará o paciente a voltar a falar da maneira como costumava.

* Terezinha de Freitas Ferreira é doutora em enfermagem pela Universidade de São Paulo – USP. Docente do Centro de Ciências da Saúde e do Desporto – Ufac. Coordenadora Operacional do Doutorado Interinstitucional em Saúde Pública da Universidade de São Paulo – USP/Ufac.

 

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