A vassoura da princesa

Itaan-ArrudaPoucas havia com semelhante elegância. Quando chegava ao Hotel Chuí, com andar garboso e postura ereta, Ela não distribuía afagos e nem bom dias: pegava do pano, da vassoura, baldes e começava a empreita do dia. “Ischk… Ischk… Ischk”. A vassoura começava o falatório da limpeza. Corredor extenso. Escuro. Sujo. À contraluz, os funcionários que chegavam, de longe, conheciam-na pela silhueta. Era inconfundível. Até o cabo da vassoura parecia corcunda diante dela. Garbosa, irrefutável, quase pedante no movimento automático de todas as manhãs.

Ainda era manhã quando os hóspedes começavam os primeiros movimentos. As amigas dela estavam atrasadas para oferecer o café da manhã. No corredor do andar de cima, o 202 era um quarto que ela se negava a limpar. Não havia diabo que fizesse com que a mulher trabalhasse ali. “Pouco higiênico”, soletrava na cozinha repleta de gente. A reclamação saia de forma praticamente sussurrada. Beirava uma confissão. Essa negativa já tinha lhe rendido, inclusive, uma inimizada entre as colegas de trabalho, que não entendiam a rejeição. “Por que, de todos os quartos, somente neste ela se nega a fazer a faxina?” era uma pergunta comum.

O ocupante do 202 era um engenheiro sueco. Baixinho. Estava no Acre para cuidar do planejamento urbanístico do centro de Rio Branco. Acordava cedo. Era baixinho e tinha uma tendência às gorduras, estancadas nas mãos finas e belas. Já estava hospedado no hotel há quase dois anos. Às 5 e meia da manhã, o gramofone importadoque trouxera do Rio de Janeiro enchia de música o ambiente. Manejava a barba farta ao som do concerto Nº 1 para cello, de Haydn. O ritual diário cumpria disciplina militar.

Naquele janeiro chuvoso, a manhã tinha nascido subversiva: ensolarada, quente e amorosa. Ela notou a mudança do tempo enquanto arrumava os quartos do andar de cima. A maioria dos hóspedes já tinha saído. Apressados, em uma terra que se arrumava para um crescimento que, nem sabiam eles, teimaria em chegar. Ela estava triste. Viúva que era, começava a sentir as dores de parir e criar filhos sozinha. A melancolia tinha lógica. Havia discutido com a filha na noite anterior. A cria, puxada para os caprichos da mãe, era mais afeita às benesses da lavoura do que plantar as sementes. Com tendências ao luxo, se envergonhava de sair de casa se equilibrando em ripas suspensas em cimas de fossas.

Ela deitara-se na cama do 201, pensativa quando dormiu. Acordou sobressaltada. Passou direto para o 203. Estava atrasada. Já tinha que estar na lavanderia cuidando dos lençóis.

Na madrugada seguinte, saiu de sua casa, em um ritual que cumpria há quase dois anos. Antes de começar o dia, com passos cuidadosos, ia ao andar de cima. A luz da lua entrava pela janela do corredor. Deixava a vassoura em frente ao 202 e fechava a porta entre aberta. Por dentro. A vassoura permanecia ali. Cúmplice. Garbosa. Quase pedante. E Ela, praticamente, uma princesa em êxtase ouvindo Haydn em tons jamais executados por outro homem.

 

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