O aceitador

Contar a história de alguém como o seu José Povonaldo, o ‘Zé Povo’, é uma missão quase impossível! Não por ser lotada de proezas complexas demais para caber numa narrativa. Ao contrário. O que torna esta saga tão trabalhosa é justamente a falta do que contar. Durante toda sua vida Zé sempre teve grande potencial, mas nunca conseguiu explorá-lo. Inibido pelo destaque alheio, ele sempre foi um homem medíocre, subjugado a vontade de minorias.

No berçário, ocupava a maior incubadora, mas era o que recebia menores cuidados dos médicos e enfermeiras. Na escola, era o maior da sala, mas não passava de um  saco de pancadas da turma. Não fez faculdade e no trabalho era aquele que nunca ganhava nenhuma promoção. Em sua própria casa, era o que menos mandava.

Diante de tanto comodismo com o ordinário mundo dos ‘Na média pra baixo’, Zé Povo passou a ser um mero aceitador, um conformista.  Pra tudo que começou a surgir na sua vida, ele simplesmente passou a aceitar, sem nunca pensar se merecia mais ou menos, o que seria certo ou errado, se a vida lhe reservava coisa melhor. Enfim, sem nunca refletir.

Nunca foi atrás de se aperfeiçoar profissionalmente porque não dava a mínima pro trabalho que tinha. Acatava todas as mais insignificantes ordens do patrão, da mulher, dos ‘amigos’ e colegas de trabalho, sem questionamentos. Ao levar um pé-na-bunda da empresa, passou a viver às custas dos seguros-desempregos e de tudo que é ‘Bolsa’ que o governo poderia lhe dar. Ao ser trocado pela mulher, Zé Povo passou a ser um homem apenas ‘assexual’.

Com anos e mais anos, parecia que a vida do simplório Zé Povo já tinha desgraças demais pra piorar. Era o auge dos seus 40 e pouco, e alguma guinada ele tinha que dar na vida. Mas pela atitude conformista do nosso anti-herói, tal reviravolta do destino nunca aconteceu. Logo os anos se tornaram décadas, e o velho Zé foi perdendo o seu mediano vigor e desgastando seu rico potencial com o acomodador ‘nada’. Até o dia de sua morte.

E daí termina sua saga: com absolutamente nada de grandioso para se contar. Zé viveu os seus 60 e tantos anos a serviço da mediocridade, não plantando nenhuma boa árvore para depois do seu fruto saborear. Parece até uma trágica história, mas no final teve a sua utilidade.

No velório de Zé, um garotinho chamado Novais Geraldo Popa, o ‘Nova Geração Popular’, puxou a saia de sua mãe e perguntou porque não havia mais ninguém lá. A mãe respondeu que era porque Zé ­ nunca foi aquilo que esperavam dele e contou da personalidade do falecido. Dali em diante, o garoto aprendeu a nunca aceitar nada. E, assim, se tornou o homem sagaz, crítico e ambicioso que Zé Povo nunca conseguira, mas sempre quis ser.

*Tiago Martinello é jornalista.
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