O pai e a arte dos pequenos aprendizados

No auge da meninice, o garotinho anda de mão dada junto ao seu pai. Ele está an-sioso para ir ao recém-inaugurado parque de diversões da cidade. Por isso, tenta apressar o passo para chegar logo. Ao avistar o cimo colorido dos primeiros brinquedos, restam apenas algumas ruas à sua frente. Afoito, ele se prepara pra atravessá-las correndo. Contudo, a força do pai puxando a sua mão o faz recuar, frustrando seu plano ingenuinamente suicida. Antes mesmo que o garotinho pudesse se dar conta, um ônibus passa à toda bem na sua frente, ‘errando-o’ por um triz!

Na hora, o pequenino fica meio perdido, sem noção do que acontecera. Mas depois, em meio aos soluços gerados pela longa bronca que o pai o aplicara, ele entende o heroísmo do ato. Naquele dia, o garotinho pode até não ter aprendido como desvendar o sentido da vida, como produzir uma fonte ilimitada de energia e muito menos como ‘dessalinizar’ a água do oceano.  No entanto, ali, naquela etapa da sua vida, ele descobrira que ao atravessar a rua é preciso sempre olhar para os dois lados. Uma lição básica, fácil de aprender, útil e que ele levaria para o resto da sua vida!
Vinte anos se passaram e o garotinho cresceu com milhares de outras lições que só o seu ‘velho’ fora capaz de ensinar. Nada de épico, mas o sufi-ciente pra ensiná-lo a viver. Tornou-se um pai! E, assim como tanto havia aprendido com seu ‘coroa’, queria passar tão sábias lições a seu filho.

Mas todas as suas tentativas pareciam sempre ignoradas pelo desleixado filho. Então, o jovem pai se deu conta de que era preciso algum ‘fato épico’ para chocar seu filho. Algo semelhante ao que havia lhe acontecido na infância. Todavia, o ‘grande acontecimento’ não veio e assim os anos se passaram. O pai perdeu a fé de que poderia dar uma grande lição no filho, algo maior do que todas as pequeninas que havia conseguido, com muito esforço, passar. Algo marcante, inesquecível!

Até que um dia bem adiante, o pai – agora com a sabedoria dos seus ralos cabelos brancos –  parou em meio a uma de suas lamúrias de pensamento sobre o tal ‘fato épico’ que ele achava faltar na educação do filho. Numa reunião familiar de Natal, ele pôde olhar com toda a atenção do mundo para o ‘seu’ eterno meninão: agora um adulto não tão bem sucedido nos negócios, mas um cidadão feliz, realizado e prestes a se tornar também um ‘Chefe de Família’.

Naquele olhar, o velho pai soube que o tal do ‘fato épico’ era desnecessário. Ele descobriu que todas as pequenas lições é que fizeram milhões de ‘marcos’ na vida do filho. Ali, ele soube que havia feito um bom trabalho e contemplou sua obra-prima, seu Hit Number One. Mas, acima de tudo, soube que deixava na terra mais um novo pai. Um pai pronto para aprender ensinando, com amor e paciência, a arte dos pequenos aprendizados.

*Tiago Martinello é jornalista.
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