O melhor lugar pra se viver

No dia em que se comemora o início da Revolução Acreana completo 20 anos de Acre. Vim passar uma semana. Vim por causa de um amor arre-batador, cheio de encantamentos, possível. Não planejava ficar tanto tempo, já quis ir embora, ensaiei esse movimento muitas vezes, mas agora quem disse que quero sair? Minha última trincheira não foi o sotaque ou as expressões regionais tão particulares que formam essa colcha de retalhos costurada com a influência cultural dos nordestinos, principalmente de cearenses, gaúchos, árabes, índios, caboclos. A última trincheira foi mesmo aceitar o quibe de arroz, o estranho “quebe”. Não sei porque resisti tanto. Bem feito é uma delícia. Sabe aqueles que ficam sequinhos, crocantes, bem temperados, encharcados com um bom molho de pimenta? Como o da dona Tereza.

Hoje pra mim não existe lugar melhor na Amazônia, no Brasil, no mundo e até no Sistema Solar só por um motivo: aqui estão as pessoas que eu mais amo. Tudo bem, parece exagero, e pode ser mesmo. Isso só prova o quanto já me considero acreana. Ô povo exagerado, que se transborda, que gosta de ir além de suas próprias forças, de seus limites, que não se resigna com o que está aí pronto e estabelecido. Percebi isso desde o início. Não é suficiente ser bom. É preciso ser o melhor, o mais. Esse Acre é pequeno, mas é metido. E dá conta do recado. Sabe se organizar, dizer o que quer, o que não quer e consegue, mesmo que demore um pouco. Mas pra chegar lá é preciso criar uma associação. A associação das associações, a cooperativa das associações, a federação das cooperativas. A boa briga é com o acreano e se precisar baixar o nível não há povo mais eficiente.

Às vezes é preciso certo distancia-mento. Olhar de fora por um período, curto ou longo, pra que a saudade nos devolva a razão. Ou não devolva. Não, não estou falando de perfeição. O Acre não é fácil pra ninguém e nunca para de sur-preender, seja pelos bons ou pelos maus motivos. É preciso reconhecer as falhas, as fraquezas desse lugar que teima em nos pertencer, acreanos paridos ou aderidos. A força está nos seus altos e baixos. Há muito o que melhorar, mas também é bom lembrar o quanto foi pior. Eu fui bem pior, tenho certeza disso.

Tem esse bairrismo que ao longo do tempo sofreu algumas considerações pra permitir que o novo se aproxime, que traga as novidades de que tanto gostamos. O Acre e os acreanos adoram novidades. E fazem as suas próprias. E quando a gente menos espera: “o Acre é pioneiro”, o “Acre sai na frente”. É cultural, é bonito de ver, eu quero isso pra mim. Quero também pros meus filhos, meu tesouro, dois acreanos pra lá de especiais e dos quais eu tiro a força necessária pra sobreviver. Eles me testam a cada instante porque já são assim, se superam a cada dia. Fazem suas próprias revoluções e eu, no meio das batalhas, luto junto pra que todos nós possamos sair vitoriosos. Um dia dá certo. Nenhuma guerra dura pra sempre. E quando o tempo de paz se aproximar espero nem precisar sair em busca de um lugar pra ir. Já estou no melhor lugar pra se viver. Com menos calor seria perfeito. Mas isso não se pode mudar. Sabe como é… “este sol a brilhar soberano”.

* Golby Pullig é jornalista
Twitter: @golbypullig

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