Receita de bola

Sei tudo ou quase nada sobre futebol. Era a infeliz goleira do time dos meus irmãos e amigos do bairro. Brigava pra entrar, brigava pra sair e só me sobrava o gol. Queria ser artilheira, mas corria pouco. E muito baixinha pra trave imaginária que não tinha limite. Se passasse por mim [em qualquer altura] era gol. Pelo menos é isso o que me recordo daqueles dias. Melhor assim. O passado tem suas flores perfumadas e algumas traças tramando dentro dos livros. Amava o Zico. Era um ídolo de verdade e vê-lo de tão perto cercado de crianças amazônicas suadas é guardado até hoje como um momento desses que a gente nem tem certeza que existiu. 

Na Copa do Mundo de 82 já torcia pelo Flamengo, meu infantil amor rubro-negro. A seleção tinha o Júnior, doutor Sócrates, Cerezzo, Falcão e naquela copa tinha Maradona. Aí esqueci o futebol e me apaixonei pelo Diego Armando, que virou ideia fixa pra nome do primeiro filho um dia. Com ele, é claro. Queria ouvir tango, me interessou pela primeira vez o espanhol. Ah, Diego Armando, vamos esquecer o presente. Ele pode ser muito cruel pra nós dois. Éramos duas crianças, ele e eu, não tínhamos maldade no coração e só nos interessava o risco de viver.  Um luxo ver Maradona jogar.

O Brasil não ganhou naquele ano e me desiludi com favoritismos e com o futebol, que se restringiu pra mim a copas mundiais, até que a trajetória de um time rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro e a retomada da própria história desse clube despertou em mim a curiosidade de tentar entender como o esporte pode desencadear sentimentos controversos e intensos. Aquela torcida, a fiel torcida, me chamou tanto a atenção que resolvi fazer parte desse grupo. Hoje sou mais uma Louca por ele. 

Não sou expert, não quero competir, nem responder a questionários. Quero torcer. Não me interessa saber quantos gols fez o artilheiro do time tal em 1977, elaborar contas sobre quantos pontos faltam pro último colocado não ser rebaixado ou a partir de que ponto se pode bater o pênalti. Sei de algumas coisas. O que não quero é ficar mastigando cada jogada. Quero só dividir as emoções. Bem coisa de mulher mesmo. Meu cunhado, fluminense roxo, me explicou detalhes valiosos sobre uma partida. Antes, me barrou algumas vezes, mas me meti na conversa e, passado o susto, ele retrocedeu. Pronto. Tinha sido admitida.

Mulheres não vão assistir a um jogo inteiro sempre, de todos os campeonatos nacionais e internacionais e dar conta de tudo o que envolve o tão variado “universo feminino”. É preciso cuidar do banho das crianças, do uniforme, da água do radiador, dos amigos, do jantar, de política, de música, da receita do bolo, do açúcar que acabou de acabar, do pedreiro, do amor, da saúde, da doença, da conta atrasada, da novela, da solidariedade ao vizinho, de passar creme no corpo, de agendar a consulta, de ler, estudar, descansar.

São tantos interesses que vêm naturalmente ou por força da vida que gostar, entender e discutir futebol pra uma mulher não vem na mesma ordem nem na mesma proporção que pros homens. Mas pensem bem. Tem tudo a ver com as mulheres. Envolve trabalho de equipe, socialização, trata do imponderável, do improvável, nos traz grandes surpresas, histórias de superação, nos faz acreditar na magia de um final feliz, nos faz derramar lágrimas de alegria e tristeza, reúne milhares de desconhecidos (em um estádio, em torno de uma mesa, na frente de uma tevê) torcendo em favor de um resultado positivo. É ou não é?

* Golby Pullig é jornalista
Twitter: @golbypullig

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