Se não os temos, como sabê-los?

“Filhos… Filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos como sabê-los?”. O poema Enjoadinho do Vinícius de Moraes é a conta exata das palavras que eu, sinceramente, não consigo encontrar e que a mim me bastam pra descrever o que esses seres são pra mim. Não que eu pense que os filhos devam estar no centro do universo de mães e pais, mas se estão como lidar? Ficar se perguntando como foram parar ali de nada adianta. Nem importa quem os colocou, se a falta de limite ou o amor excessivo. Não há medida certa para amar um filho, os filhos. Mães e pais não explicam como e porque sentem o que sentem antes de racionalizar pensamentos, palavras e ações dirigidos a eles.

Uma coisa é certa: vivemos intensas contradições de amor e não amor. Nunca ou quase nunca será ódio, mesmo que ninguém compreenda. Passamos de “noites de insônia, cãs prematuras, prantos convulsos” ao delírio de perceber “que ma-cieza nos seus cabelos, que cheiro morno na sua carne, que gosto doce na sua boca”. Tentamos adiar ao longo de suas vidas e das nossas o momento inoportuno do desencontro antes de ter a certeza de que poderão percorrer seus próprios caminhos sem cair ou cair sem se machucar ou se machucar sabendo se refazer dos ferimentos e sustos.

Não há palavra ou emoção que sejam precisas. Ter filhos é impreciso. Sem rota, sem rumo, sem manual, sem bula e muitas vezes sem remédio, que pena. Seria fantástico encontrar uma chave que abrisse o cofre onde estivessem guardados os segredos de como criá-los e educá-los de forma a não causar-lhes tantos danos pra que no futuro nos retornasse o amor desmedido sem tantas cobranças e acusações de erros causados por falta de limites, excessos ou qualquer outra desculpa desabonadora desse amor que nasce sabe-se lá quando e que não deveria acabar nunca.

Não defendo a maternidade pra todas. Não digo que ter filhos é a melhor coisa do mundo pra todos. É bom pra mim, mas não é tão bom sempre. Reconheço que é preciso resguardar um tanto de si mesmo para a dúvida. Se não for assim eles dominam nosso ser que já tão naturalmente se entrega. Observando esse cotidiano cheio de chamamentos, interpelações, apelos, beijinhos, gritos rebeldes, egoísmos, abraços de surpresa, olhares curiosos, curativos nos joelhos e almas, reticências, concessões (nas horas certas e erradas), concluo que os filhos são necessários pra quem acredita neles e nas suas infinitas possibilidades de nos fazer felizes e de nos enlouquecer, se isso nos interessa.

A vida não segue em traço reto. Enlouquecer é bom também e oportuno pra quem quer entender esses serem divinos que “chupam gilete, bebem shampoo, ateiam fogo no quarteirão”. Vinícius encerra a questão por mim, que sou imperfeita e pobre de palavras: “Porém, que coisa, que coisa louca, que coisa linda que os filhos são!”.

* Golby Pullig é jornalista
Twitter: @golbypullig

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