Deus que nos acuda!

Recentemente estive numa reunião da diretoria da Unale (União das Assem-bléias Legislativas) em Curitiba (PR) e pude ver diferentes tendências políticas manifestas nos estados brasileiros. Pensar em hegemonia ideológica num sistema democrático é incoerente. A democracia pressupõe o contraditório. Mas tem determinadas situações e posturas de parlamentares que deixa a gente assustado.

A deputada Aspásia Camargo (PV) do Rio de Janeiro fez uma palestra sobre a questão do desenvolvimento sustentável e a reunião do Rio + 20 que avaliará os resultados da Eco 92. Um discurso politicamente correto cheio de jargões comuns aos ambientalistas. Ela colocou a economia verde como a salvação para acabar com a miséria no Brasil. Aplaudi de pé por que quem não gostaria de ver o país produzindo sem causar nenhum dano à natureza? As florezinhas e as borboletinhas ululando numa floresta intocada enquanto os trabalhadores derramam o suor nosso de cada dia. Todos esperando para algum antropólogo chegar e fazer uma foto que será publicada na Sorbonne, claro!    

Tudo muito bonito, mas pude perceber que a parlamentar e intelectual cario-ca não tem conhecimento prático da Amazônia. Não sentiu de perto o calor equatorial e nem as dificuldades de quem sobrevive nas matas com poucos recursos materiais. Ela chegou a sugerir que deveria ser formada uma comissão internacional para gerir os recursos naturais da Amazônia. Fiquei imaginando um ambientalista francês de Paris determinando os rumos da vida de um caboclo das florestas do Juruá. Muito legal! Os países europeus e da América do Norte que não conseguiram evitar a depredação ambiental na sua terra agora querem ser os responsáveis pelo nosso bem-estar e conforto. Que fofo!

Mas a postura mais interessante da intelectual foi quando disse para a deputada Ana Costa (PSDB) do Pará que era um absurdo os parlamentares do Norte e do Nordeste estarem lutando pelos royalties do Pré-Sal. Ela deu a entender que se os nossos gestores se atrapalham com os poucos recursos que recebem imaginem a confusão que iriam fazer com mais. Segundo ela, é melhor a gente deixar isso por conta dos “sabidos”do Centro-Sul brasileiro.

Toda essa conversa me fez ter a certeza que vários intelectuais do Sul Maravilha realmente não conhecem a realidade da Amazônia. Ainda possuem aquela imagem estereotipada de florestas infindáveis com índios pintados dançando ao luar. Eles se esquecem que aqui existem cidades, vilas e colocações habitadas por gente que tem as mesmas necessidades que qualquer outro cidadão planetário. E que será impossível manter os amazônicos na sua terra sem nenhum tipo de prejuízo ambiental.

É óbvio que não sou a favor da depredação que aconteceu na Amazônia peruana e boliviana. Mas não vamos matar os amazônicos de fome e nem expulsá-los. Depois dessa “aula”decidi: por favor não me mandem mais email e mensagens panfletárias com o criativo slogan de “Salvem a Amazônia”. Ao invés disso se quiserem vir aqui ajudar as pessoas in loco podem contar comigo.

* Nelson Liano é jornalista
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