A morte também é vida!

Depois de seis anos de tratamento contra a hepatice C, que virou cirrose, meu único e querido cunhado Joel, de 46 anos, morreu.

Morreu Joel deixando minha irmã Daniela, viúva aos 34 anos, com dois filhos, a Dara e o João Pedro, para terminar de criar, educar, orientar e encaminhar na vida.

Joel viajou várias vezes para São Paulo onde aguardou por um transplante de fígado sem sucesso. Por último, nossas esperanças estavam em Fortaleza, no Ceará, onde os critérios de transplantes são mais acessíveis e a mortalidade dos transplantados é bem abaixo do observado em São Paulo.

Joel ficou na cabeça da fila e quando, finalmente, encontrou um doador compatível, o pai do doador autorizou a doação do fígado, mas a mãe do doador se negou a doar o órgão.

A mãe do doador disse não!

Joel ficou tão frustrado com a notícia que seu estado de saúde se agravou e ele veio a falecer cinco dias depois.

Para mim o ato de negar a doação de um órgão de um ente querido que, pelos desígnios de Deus, veio a falecer, chega a ser um homicídio culposo.

A culpa é a não observância do dever objetivo de cuidado. O agente, ao agir de forma imprudente, negligente ou imperita, provoca um resultado não querido, mas previsível. Assim, o homicídio culposo é aquele em que o agente não possui intenção de matar o ofendido, sendo o resultado, no caso a morte, uma conseqüência da atuação descuidada do primeiro.

Se uma pessoa sabe que a não doação de um órgão pode acarretar na morte de uma pessoa que precisa desse órgão para sobreviver, isso é homicídio culposo!

Por que não doar um órgão que não servirá mais para o doador que já se foi?

Por que deixar os vermes, a terra, se alimentar de órgãos e tecidos que podem salvar vidas???

A doação se faz de maneira anônima. É necessária apenas a autorização da família, que deve estar ciente da opção por doar órgãos em caso de falecimento do ente querido, de modo que a perda de uma família se torna o ganho e a felicidade de outra.

A morte também é vida para quem fica e recebe um órgão que lhe garantirá mais tempo junto da família, dos amigos, produzindo com saúde e qualidade de vida.

Infelizmente, nem todos os brasileiros pensam dessa forma.

De acordo com o Ministério da Saúde, o número de transplante de órgãos em 2009 aumentou 24,3%, comparado ao mesmo período de 2008. Mas infelizmente, apesar do número crescente, a realidade da fila de espera mostra como é necessário que mais pessoas se sensibilizem com o fato e seja um doador de órgãos, já que cerca de 60 mil brasileiros esperam na fila de transplante de órgãos no Brasil.
Em geral, o doador deve ter até 60 anos. Para o caso de transplante de fígado, a idade do doador pode chegar até 80 anos!

“Não chamem o meu falecimento de leito da morte, mas de leito da vida. Dêem minha visão ao homem que jamais viu o raiar do sol, o rosto de uma criança ou o amor nos olhos de uma mulher. Dêem meu coração a uma pessoa cujo coração apenas experimentou dias infindáveis de dor”. Este é o trecho de uma carta anônima de um doador de órgãos divulgada no site da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).

Eliane Sinhasique é jornalista, radia-lista e publicitária
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