A gente se fala

Em uma megalópole como Rio Branco, onde a gente se encontra em uma esquina e duas quadras depois revê a mesma pessoa, haja encontros e desencontros. Alguns não tão graves, acontece, outros infinitamente dolorosos, que nos perturbam os sentidos, que fazem a gente maldizer os céus, os astros, o destino.

Fica tudo na base do “a gente se fala”… E adeus!

Não que fosse acontecer um casamento ou algo do gênero a partir daquele encontro, nada disso, mas foram encontros bonitos, fortes, que se acabam ali mesmo, na poei-ra de uma tarde fria, em um café da manhã, numa simples despedida.

“A gente se fala”. Pronto, sorteada a senha para o terror, o “never more”, o nunca mais do corvo, o vou te dá um gato, ele tem sete vidas pra você infernizar.

A gente se fala. Corta para uma multidão ao meio dia no terminal urbano.

A gente se fala. Corta para uma saída do Arena da Floresta lotado em dia de decisão do campeonato.

A gente se fala. Corta para “onde está Wally”.

Nada mais detestável de ouvir do que essa maldita frase. Logo depois a porta bate e nem por milagre ela se abre.

É jovens aspiras a 007, evitem essa sentença mais sem graça. Fofoletes em flor, esqueçam, esqueçam.

Melhor dizer logo que vai comprar o cigarro do abandono. Melhor dizer que vai pra nunca mais. Melhor o silêncio, o telefone na caixa postal, o telefone desligado, o desprezo propriamente dito.

A gente se fala um caceta. Seja homem, troque de palavras, use o código do bom-tom e da decência. A gente se fala é a mãe, ora, ora.

Como canta o Rei, “use a inteligência uma vez só, quantos idiotas vivem só”…

Esse “a gente se fala” deveria ser proibido por lei. Constar nos artigos constitucionais, ser crime inafiançável no Código Penal.

A gente se fala é pior do que a gente se vê por ai. Pior do que deixar ao acaso, que jamais fiz algo certo, deixando a saudade, que vira uma questão de azar e sorte.

Melhor dizer logo “foi bom, meu bem, mas não te quero mais”. NON VOGLIONO PIÙ, como no livro de poemas que ganhei no último aniversário de uma amiga de longa data. Dizer que foi bom meu bem e pronto, ficamos por aqui, assim é a vida, sempre mais para curta do que longa-metragem.

A gente se fala é a bobeira-mor dos tempos do amor líquido e do sexo sem compromisso. A gente se fala é a mãe, aquela vaca, ora!

Seja homem, seja mulher, diga na lata.

Não engane a moça, que a moça de fino trato, que não merece desdém. 

A fila anda para os dois, jogue limpo.

A gente se fala. Corta para uma multidão no show do Gustavo Lima na Expoacre2011. A gente se fala. A gente se fala. Corta para a multidão no 1º de Abril na promessa de aumento salarial. A gente se fala. Corta para o formigão em dia de friagem.  A gente se fala. Corta para a missa do Dom Moacyr na Catedral. A gente se fala. Corta para um engarrafamento na Getulio Vargas…

A gente se fala. Então aproveita e vai olhar se eu estou na esquina, com teu coração de gelo de uma figa!

Como disse o cantor da Costa “mulher eu te peço um favor, rasque o samba que te fiz e sei que tens um novo amor… espero que sejas feliz”. Sem ressentimentos, mas a gente se fala!

* Victor Augusto (Bombomzão) é jornalista
Email: [email protected] Twitter: @bombomzao

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