Lendas suburbanas

Tia Odaléia! Sabe aquela paradinha musical do seu tempo, da Rádio Andiróba? Lembra: eu conheci o seu primeiro amor, a sua primeira dor e o primeiro erro seu… Então!
Lendas
Se conselho fosse bom, ninguém dava, mas vendia. Ora, pois! Se a tua mãe te mandar comer presunto, você se verá na obrigação de fazê-lo? Nem que seja o teu pai… Não é bom se obrigar a muita coisa, mas tão somente consigo próprio. Responsabilize-se, inicialmente, com você e, então, depois, veremos o que pode ser feito com as dicas e sugestões dos demais.

Ela é uma daquelas detestáveis garotas que se uniformizam, se perfumam, colocam uns sapatos de saltos à Luís XV, falam pornografia em voz alta, fumam hollywood e atravessam 20 vezes por noite do Cerb para a praça. É daquelas do estilo nunca-te-vi-sempre-te-amei, sem futuro e sem palavra, justo porque sequer sabe conversar direito.

Então, a garota taluda, boa mesmo, pra lá de gostosa, cheia dos apetrechos físicos e rebolativa por demais, mal conseguiu completar dezesseis anos e já foi para o Rio de Janeiro dar plantão, ou sentar praça, na porta da Rede Globo e adjacências. Alguém por aqui lhe houvera dito que ela levava jeito para ser atriz, ou algo mais, ou algo menos. Foi a rodadíssima Tia Rodésia, uma doidinha de vidro com trânsito livre no meio político pervertido e no mundo das falcatruas públicas, metida a faceira e conselheira dessas piruazinhas, projetos de púberes prostitutas que querem ser muito mais.

– Ora, vai menina! Vai ver o que o destino te reserva. Quem sabe, daqui a um ano tu voltas aqui com uma profissão definida.

Talvez conseguisse enganar alguém representando no teatro de quatro. (Uma referência ao Teatro dos Quatro.) Talvez se tornasse manéca dos paparazzi tarados e gulosos da Boca do Lixo, o bairro.

Lá chegando, logo o pouco de vergonha na cara que nunca teve ficou no Aeroporto daqui, e o que havia levado em termos financeiros se foi também.
Passadas três semanas, a tia, que era tia segunda da madrinha da tia da colega notívaga dela, que a hospedara na kitnet estilo colonial da Rua Marquês de Abrantes, passou a cobrar pela hospedagem, como todo bom carioca ou acrióca.

– Ô menina! Você está comendo bem, tem o seu bife com alface diário, vai à praia todas as tardes, à noite curte a badalação da Rua Duvivier, chega de madrugada, e tudo o mais, mas as férias se acabaram, lindinha!… Aquele colchonete e aquele travesseiro, a partir de amanhã, terão um preço: duzentos mangos mensais, fora a comida.

– Pô! O que fazer? – Pensou com ela mesma pela primeira vez.

Como conseguir algum trocado enquanto não se tornava global sensacional? Seria doméstica? Nana-nina-nan-nan-não!… Trabalharia como falante naquela empresa de telemarketing? Também não! Ainda não chiava direito… Poderia ser professora de forró na Academia Corpore, ali mesmo no Flamengo?

Piorou!… Iria ao Frenetic Dancy Days da Boate Help? Refletiu, meditou, pela segunda vez na vida. Também, não era mais virgem. Com o que se importar?… Ou iria fumar maconha no Noites Cariocas, no morro da Urca? Talvez! Quem sabe, na companhia de um daqueles aposentados da geração Diogo Maynard… São muitas emoções…

A idéia de tornar-se puta ferveu-lhe a mente. Seria apenas por uma temporada, de leve. Mas quem lhe daria o primeiro empurrãozinho na profissão efêmera? O namorado acreano babaca-bebeca-bibica-boboca-bubuca? Não, ele é muito ciumento!… O padrasto cheio de intenções malévolas? Não, ele é um imbecil!… O ex-patrão meio gay da boutique Dona Flor? Não, ele nem é chegado!… O vizinho do Abrahão Alab metido a ricardão de olhos longos no derrière apetitoso?… Talvez, bobinha!

– Ah, já sei. Darei um breve telefonema à frágil presidente lá de casa, mamãe, da Rua Trafalgar Square, em Rio Branco, é lógico. – Pensou já em voz alta.
Então, patatá-patati-patati-pataculá, roendo as unhas malfeitas por ela mesma, em telefonema à mãe residente no Acre, a moçoila buscou um conselho, uma dica, um palpite (logo de quem, da mãe, ora!) e, como não poderia deixar de ser, ouviu o seguinte parecer semi-profissional, uma recomendação apenas:

– Ora tá! Seja um pouquinho inteligente, pelo menos uma vez na vida, minha molequinha afoita. Usa a tua carteirinha, Manoela Siriguela!
A patricinha pobre achou por bem ouvir a sugestão da esperta mãe… E tanto e de tal forma fez e fez e fez que, passados dois meses, arranjou uma barriga em vista do relacionamento, estilo vuco-vuco, com um asteróide global que por último perdeu o emprego de executivozinho de terceira categoria, o Manoel Cabeça-de-papel.

O resultado foi que a mocinha voltou para Rio Branco, o menino nasceu acreano, ela agora trabalha numa boutique bacana da cidade e a mãe complementa as idas e vindas da espertinha aos melhores points dos patos e otários da cidade  –  como eu  –  onde, e, por incrível que pareça, já começa a enganar um desses novos ricos de araque que sequer desconfia de que, no pacote bem embalado, no casamento tão sonhado e tão bem articulado, virá também um juniorzinho acrióca, registrado no nome da avó de quarenta anos e sem marido há vinte, uma professora sacana cansada de guerra e em vias de se aposentar.

– Ora, a vida é assim! A gente tem que seguir as indicações e os conselhos de quem melhor sabe aconselhar. – Foi o que me disse a fogosa Manoela, numa dessas noites incríveis da Boate Happy Days, ali naquela muvuca com nome de avião velho, no aeroporto antigo. 
*          *          *
Em verdade vos digo: eu vim ao mundo para tirar uma folga daquele diapasão terrível que é o paraíso. Muito rotineiro aquilo lá.

A partir do final dos anos oitenta, então, por dez ou onze anos seguidos, passei as férias de janeiro no Rio de Janeiro, junto com amigos e amigas inteligentíssimas e dadíssimas, estilo samambaia trepadeira, em apartamentos alugados e regiamente pagos, na bela Copacabana… Ah, que tempos de ócio foram aqueles! Hoje, restam apenas as olheiras adquiridas quando em jovem e um pouco da libido um tanto prestimosa e altaneira. Gracias a la vida!
Então, num desses dias luminosos, estava eu no Itália Uno, o famoso bar e restaurante do Posto 3,  já bebericando talvez o vigésimo chope. A mente se tornara um tanto embotada. Mas na boa.

Aí, eis que aparece, vindo das nuvens dos mais lindos céus amazônicos, um irmão xapuriense da melhor cepa. Como quase todos daquela pacata cidade, o gajo tem QI acima do normal. Incomum. Beleza puta!

Era o João Carlos Pururuca de Abreu, um bacana acreano regiamente hospedado no Leme Palace Hotel, aquele próximo ao Meridien, depois da confluência da Princesa Isabel. O cara se abanava com um talão de cheques do Banco Itaú e já foi pedindo uma lagosta de aperitivo, o que não é para qualquer um. O formidável e bonachão, meu irmãozinho e contemporâneo da Princesinha do Acre, era um verdadeiro craque nesse esporte nacional denominado trambique. Veja só, minha senhorinha!

Já passava das seis da tarde e ele já foi dizendo na bucha:

– Zé Cláudio, meu brother! Amanhã, aí pelas dez, nós vamos nos encontrar lá no bar e restaurante Barril 1800, em Ipanema e, de lá, eu vou te patrocinar um dos maiores prazeres da Terra. Você não vai descolar um tostão. Eu pago tudo. Mas é surpresa.

Aí eu pensei e pensei muito comigo mesmo, com os meus botões e o zíper. Ele não iria me enganar. Não me daria uma volta, de jeito nenhum, porque sabe que sou funcionário público, a minha grana é regrada e sabe ainda que é muito difícil me deixar sem saída.

No outro dia, lá estava eu ansioso, pontual, bebericando mais um chopinho e mastigando amendoim, quando o meu grande amigo pilantra chegou num táxi. Eu entrei na condução e ele deu a ordem:

– Toca pra Jacarepaguá, motora! – E lá fomos nós.

Num terreno grande ali depois do Barra Shopping, o táxi parou e eu fiz questão de pagar a corrida. Na boa. Então, foi aí que tirei da cara o Rayban, levantei as vistas cansadas, devido a ressaca, e deparei com um helicóptero brilhante e um tanto translúcido em vista do sol, desses do tipo esquilo. O piloto logo funcionou a engenhoca voadora  –  o esqueleto do avião  –  e nós fomos para um passeio de uma hora para apreciar as belezas da zona sul, posto que as outras 3 zonas não têm beleza alguma, nem o centro da cidade, a não ser aquelas construções antigas, hoje reformadas, como a Biblioteca Nacional e o Teatro Municipal.

– Pô, beleza pura! Os bairros dos bacanas são realmente lindos, já a partir da Barra, São Conrado, Lagoa, Gávea, Copa, Urca, e assim por diante. – Foi o meu único comentário, uma vez que estava realmente em êxtase.

De volta, o meu nobre amigo sapecou:

– E aí, gostou meu brother? Poucos são os seres humanos que têm esse privilégio. Sinta-se um privilegiado. Quando fores a Xapuri, conte da nossa aventura, mas omita um detalhe desinteressante para a minha reputação semi ilibada.

Findo o comentário, ele arrastou o tal talão de cheques e pagou algo em torno de uns 800 reais, no dinheiro de hoje. Só que eu espichei o olho e vi que o tal talonário era de Manaus e o nome lá subscrito era de um tal Waldemar não-sei-das-quantas.

E ele, já no shopping, em gíria ultrapassada e já chiando, tascou:

– Morou, Moraes, se não morou não mora mais! Malandro é o gato que come peixe sem ir à praia. Como é bom dar a loba num carioca.

Em que raio de mundo é que estamos? O meu irmãozinho da velha terrinha conseguiu enganar até um ca-rioca. Imagine o que ele faria com um paulista… Como é que pode? Logo um cara de Xapuri, um acreano de história e tradição, de família distinta e tudo!… Não convidarei esse Pururuca nem pro aniversário do Motinha, meu irmão, que é gente boa…

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