Sem nenhum mérito

Não faz tanto tempo, li num almanaque pequeno texto da verve de Rui Barbosa. A memória está já embotada em vista dos anos que se foram. Todavia, o escrito trazia uma mensagem mais ou menos parecida com as assertivas a seguir. Ser mestre não é de modo algum um emprego e a sua atividade não pode ser avaliada por métodos comuns. Ganhar a vida é para o professor um acréscimo e não o objetivo maior. O que importa, afinal, não é a idéia que fazem dele os homens do seu tempo. O que verdadeiramente pesa na balança é a pedra que lançou para os alicerces do futuro.
Descoberta-sem-meritos
Daí, vem em meu socorro o velho Karl Marx que, num dos seus conceitos de ideologia, afirma que o capital/patrão traçará todos os perfis psicológicos de forma a manter o trabalhador sob as suas vistas. Dizer que o professor deve ter como meta apenas o futuro dos filhos dos outros é, hoje, no mínimo, um acinte. É um atentado à inteligência de quem busca transmitir conhecimentos. O senhor Rui foi, durante toda a vida, o porta-voz mais eloqüente dos brasileiros ricos do período entre o final do  século XIX e boa parte do século XX.

Então, depois do advento da greve dos professores das universidades federais, em 2006, comecei a pensar sobre a vida deste ser humano que, dentre outras, tem a grave incumbência de levar os mais jovens a viver, o mais coerentemente possível, o mundo dos mais experientes, colaborando na melhoria do bem-estar da sociedade em geral. É realmente muito pesado o papel desse comedor de giz.

Há algum tempo, passei as vistas por uma obra de Theodor W. Adorno, da Escola de Frankfurt, Alemanha, intitulada Crítica cultural e sociedade (Barcelona: Ediciones Ariel, 1969). Consigo lembrar algumas considerações do autor. Todas ainda hoje estão eivadas de realidade e contemporaneidade. Por isto é preciso fazer um tratamento mais minucioso sobre algumas ponderações que não me fugiram à memória.
Pensemos, de início, naquele moço ou naquela moça que se arvora a fazer um curso pedagógico, de nível médio. Trata-se, é claro, de um ser humano prenhe de sonhos e, no mais das vezes, imbuído dos melhores propósitos, enquanto cidadão que pensa poder colaborar para o futuro das gerações que se vão sucedendo. Eis o idealista útil a um sistema que o quer voluntarioso, “sem dinheiro no banco”, trabalhador incansável, mas destituído de realidade.

Desde as primeiras aulas nos cursos de formação, o professorando (aluno) já se defronta com mensagens irrealistas do tipo o sacerdócio do educador exige-lhe a vida em nome do futuro da humanidade. (Esta eu vi uma vez em Brasiléia!). E tudo vai exigir do futuro professor, desde já, muitos ainda na adolescência, um desprendimento total, uma dedicação incomum, um amor à camisa que poderá vestir-lhe apenas e tão somente de glória efêmera, e nada mais…

Então, o caro mestre já se sente responsabilizado pelo há de vir da pátria amada. Em nome do futuro do país ele dará a vida, ganhará salários miseráveis, viverá uma vida de privações mil e morrerá tão pobre quanto seus pobres sonhos de professor pobre. (Pensar que no rico Estado de São Paulo, de Geraldo Alkmin, um instrutor desse naipe, com nível superior, ganha 650 reais para ir e vir de ônibus, comer mal, vestir-se pessimamente e habitar vilas inóspitas).

Aí, aqueles que projetaram este nobre ser, que trabalhará diuturnamente por salários que mal lhe garantem a sobrevivência, introjetam nele ainda muitas outras sandices que o tornam presa de um mundo obscuro, irreal, confuso. Assim, o professor se torna um alienado da realidade, daí a dificuldade que vai encontrar para entrar no mundo dos negócios, dos lucros, da exploração.

Segundo Adorno, é preciso estabelecer comparações. Daí poderemos claramente observar que um comerciante, por exemplo, sabe como extrair lucros entre suas compras e suas vendas. Um industrial vê a mais-valia ser fabricada e seus operários sentem esse mesmo processo por dentro. Um agricultor sabe cultivar o sobre valor das suas colheitas. O profissional liberal estabelece e defende seus honorários e taxas por categoria. Apenas o professor julga que a vida econômica se desenvolve num reino de diálogo e de igualdade. Daí o seu fracasso quando se aventura a uma empresa em outro campo: uma pequena loja, uma pequena chácara, um pequeno artesanato…

Eu, então, não consegui sucesso num ateliê de costuras, nem na venda de roupas compradas em São Paulo. Um desastre foi a minha aventura empresarial. Que pena!

Num desses dias, então, alguém, de uma faculdade particular, disse que pagaria a mim por um trabalho acadêmico – de doze ou treze laudas – cinco caixinhas de cerveja skol, ao que prontamente rechacei, uma vez que corria o risco de estabelecer um novo câmbio para as transações financeiras entre professores e alunos.

É que no capitalismo vive-se a mecânica da extração dos lucros. Para ingressar nesta engrenagem e nela movimentar-se, o professor jamais terá queda, jamais terá jeito, uma vez que tem a alma presa às quatro paredes de uma sala de aula etérea e sem muito significado real, tal qual ele próprio que, se mostra um exemplo sobre o caos das nossas universidades, a título de ilustração, encontra o sujeito, o verbo e os complementos, mas não mergulha no problema em si, que hoje atinge uma parcela considerável de brasileiros tão ludibriados quanto ele.

Mas há um algo mais. Há o fator mais preocupante que engana o cidadão em sua alma de bem intencionado. É a pior de todas as desditas, a maior de todas as alienações. Aqueles que estão encastelados nos ministérios fazem dos educadores heróis (ou anti-heróis) modernos responsáveis pelo que de bom ou de ruim poderá ocorrer ao futuro das gerações. Há, no entanto, todas as possibilidades de um vir-a-ser não tão auspicioso, uma vez que temos caminhado em direções opostas à justiça social e à igualdade de oportunidades e condições… E por todas as mazelas futuras haverá de ser o professor responsabilizado, apesar das condições educacionais deste país de inválidos espirituais. Os poderosos fazem muito pouco pela educação, e a culpa pela derrocada cabe ao infeliz professor.

Assim, cobrir o professor de glória é um jogo ardiloso que os donos do poder fazem para depois lhe atirar todas as culpas pelas novas gerações que se sucedem e não apontam saídas para a dilemática do mundo moderno…

Estas são apenas algumas facetas que dão um retoque não tão colorido ao papel inglório do professor, que não se tem habilitado convenientemente para a formação dos gestores do Brasil do futuro.

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