A guerra das estrelas

O filme Guerra nas Estrelas continua sendo um grande sucesso. É forte o atrativo que exerceu e ainda exerce sobre as novas gerações.
Tudo parece ter começado com os habitantes do deserto que deveriam ter uma visão deslumbrante do céu quando estrelado. Do grande interesse pelo conhecimento das coisas surgiu a geometria, a álgebra, os cálculos que possibilitaram a construção das pirâmides em pleno deserto em locais distantes das pedreiras de onde retiravam e transportavam blocos enormes que iam encaixando com base num plano de mestre.

Passaram-se séculos até os russos fabricarem o satélite Sputinik que foi lançado no espaço com a cadela Laica. Jocoso e com sentimento de inferioridade, o Brasil fazia cinema nesse período produzindo as chanchadas. Oscarito, parceiro de Grande Otelo, atuou num filme em que um morador de casebre encontrava um “satélite” que havia caído na sua horta, um objeto metálico cheio de pontas. Jô Soares, jovem então, atuava fazendo o papel de um norte-americano vestido com espalhafatosa camisa floreada. O filme era em preto-e-branco, claro. Um arremedo de suspense com comédia pastelão. Mas a platéia, neste país, era muito inocente e se divertia com as projeções de filmes com Oscarito e Mazzaropi. Não durou mais que uma década. O cinema norte-americano com um poderoso esquema de distribuição abocanhou o mercado de cinema em todos os países subservientes.

Os filmes inteligentes de comédia pastelão do Charles Chaplin não eram projetados em nossos cinemas e só se popularizou após a ditadura militar graças às salas de projeção alternativas. Chaplin foi exilado pelos Estados Unidos no período da caça às bruxas quando qualquer crítica que se fizesse ao estilo de vida norte-americano ou capitalismo era visto como adesão ao comunismo soviético.

Sempre foi muito complicada a vida das pessoas que se comprometeram com as demandas por mudanças, liberdade, democracia, direitos humanos e ecologia. Durante o perío-do do entre guerras com a expansão do nazismo alemão e do fascismo italiano, e depois, com a invasão de Paris muitos artistas emigraram para os Estados Unidos. Em seguida, com o macartismo já citado houve uma debandada. Chaplin era britânico, fazia teatro ainda criança em plena era vitoriana, e, quando viajou para a Inglaterra, em 1952, com o fito de lançar “Luzes da Ribalta”  teve seu visto revogado pelo Serviço de Imigração norte-americano. Ele só retornou aos Estados Unidos para receber o Oscar pelo conjunto de sua obra, já velhinho, com mais de oitenta anos. Parece brincadeira, mas a existência de certas pessoas é bem demarcada pelos períodos de liberdade e repressão em seus países de origem ou de adoção.
Por tudo isso é muito importante observar se existe liberdade de expressão num dado país ou se os governos manipulam através dos meios de comunicação as respectivas sociedades. No caso do Brasil as coisas são mais complicadas porque não se trata de um estado unitário,  mas,  de uma fe-deração com tremendas desigualdades regionais, ao ponto de um sociólogo dizer que o Brasil é um arquipélago. Alguns representantes no Congresso Nacional têm que lutar bastante para amenizar essa desigualdade procurando tirar de quem tem muito como o Estado de São Paulo para aqueles que têm pouco, como o Piauí, o Acre, Alagoas e outros. Isso é um fato. Como também que tiram também para eles mesmos.

Por sua vez a circulação de informações e a liberdade de expressão são mais presentes nos grandes centros, onde a economia propicia empregos e oportunidades para muitos de modo independente das máquinas de governos. Isso faz com que nos Estados tidos como mais pobres os governos passam a exercer uma dominação desastrosa sobre as pes-soas por serem aqueles que decidem quem pode trabalhar e quem não pode. Ao ponto, inclusive, em alguns casos, de usar de certos expe-dientes para favorecer ou proteger alguns da iniciativa privava e perseguir e levar à falência a outros, conforme a conveniência eleitoral.

Isso é uma coisa terrível. Muito mais porque não é possível dinamizar as mentalidades dos mais jovens, não é permitida a rebeldia juvenil, não é permitida a mobilização tais como greves, passeatas, nem mesmo discussão sobre os problemas que afetam a todos. Este ano tivemos notícia de uma grande movimentação no Chile por uma educação pública de qualidade, contra a privatização do ensino e outras questões. No Chile, aqui ao lado. Se isso ocorresse em outros tempos quando o movimento estudantil no Brasil era atuante e forte, essa onda já teria chegado aqui também, inclusive no Acre. Investem muito dinheiro público em mordaças. É muita gritaria para esconder o silêncio submerso.

E como os jovens passaram a ter suas mentes acopladas às imagens dos filmes norte-americanos com seus efeitos especiais, dos vídeos games, da internet, foram perdendo a arte de imaginar e, por conseguinte, de criar coisas novas. Ora, está em discussão agora a indicação de candidatos à prefeitura e estão vendendo a idéia de gente nova. Mas a questão não tem a ver com idade e sim com novas possibilidades de uma política mais horizontal menos hierarquizada, menos controlada. O Brasil e em especial o movimento estudantil já viveu isso quando foi necessário derrubar a Ditadura. O novo irrompe, não adere.

Todos ficam iguais e velhos quando chegam ao poder. Não é preciso ficar lamentando isso. O problema é essa permissividade geral que gera corrupção, mau exemplo para os jovens, liberação para algumas coisas e castração para outras. Muitos estudantes até assistiram filmes de Chaplin, mas, não têm a menor noção do significado deles na História. São passivos, tudo que colocam em suas bocas eles engolem. Não possuem crivo crítico. A questão mais importante dos últimos tempos, a mudança do Código Florestal que vai afetar a vida de todo mundo, em todos os aspectos, econômicos, sociais, culturais e ambientais não está sendo discutida pelos alunos da educação básica nem do ensino superior tanto das instituições públicas como das privadas. Bom, estão num mundo virtual, literalmente nas estrelas mesmo porque a política no Acre é paralisante, polarizada, maniqueísta e verti-calizada. A cultura política no Acre está mais para Maniqueu do que para Macunaíma. Que pena.

 

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