Arte sem medo

Em geral as pessoas não dão muita atenção ao trabalho desenvolvido pelo Governo nos órgãos de Cultura que para alguns não passam de cabides de emprego. Muito poucos comparecem aos eventos patrocinados pelo Estado, com exceção daqueles voltados para as maiorias como os shows da Feira Agropecuária.

Espetáculos, exposições de artes estão sempre acontecendo mas não são prestigiados por um grande público.  Algumas vezes professores de escolas públicas levam suas turmas para assistir espetáculos sendo que é muito raro prepararem com antecedência seus alunos para o evento ao qual serão levados. Recentemente, durante um espetáculo de um grupo de São Paulo que está fazendo turnê pela Amazônia, alguns alunos manifestavam sua insatisfação por estarem sentados assistindo a algo que não entendiam, no caso, um grupo de músicos e cantoras que reelaboram as músicas de povos indígenas coletadas em diversos lugares do planeta.

Poucas pessoas têm conhecimento de que todos os anos um percentual da arrecadação é destinado para utilização por escritores, músicos, artistas em geral, para a produção e realização de espetáculos, exposições, publicações de livros e outros. Persiste, porém, o antigo problema da distribuição ou difusão desses fatos. Daí, a impressão de que não está acontecendo nada.

Quinta-feira fui assistir à projeção de um filme documentário realizado por um grupo dessa nova geração que está capitaneando as artes na cidade. As pessoas do grupo organizadas num cineclube de nome Samaúma não só projetam filmes com os costumeiros debates após as projeções, filmes esses que não estão no circuito comercial, ou seja, são alternativos à indústria cinematográfica norte-americana, como também realizam seus próprios filmes. O referido documentário foi realizado em Belém por ocasião do Fórum Social Mundial sobre a questão da fome. Quanto à qualidade técnica e artística está no mesmo nível de outras rea-lizações desse tipo  do eixo Rio-São Paulo,  na minha opinião.

O que mais me chamou a atenção nesse filme foi a percepção de totalidade desses jovens ao filmarem toda aquela gama de coisas acontecendo em meio à centenas de pessoas acampadas fazendo suas manifestações e apelos com respeito à essa problemática que envolve o agronegócio, as grandes corpora-ções, as suas atividades espoliadoras que custam muito alto para as reservas naturais e a vida em toda sua diversidade no planeta.

Essa qualidade técnica é resultado de uma prolongada oficina realizada durante o governo Binho Marques na Usina de Artes João Donato, sob a direção de um cineasta do Rio de Janeiro de nome Maurice Capo-vila cuja competência é inegável quando nos deparamos com esse filme “Você Tem fome de Quê? “ dirigido por Juliana Machado e Roger Elarrat, afora a participação de outros realizadores como Ítalo Rocha, que produziu durante o curso de cinema um documentário sobre seu tio,  o teatrólogo Betho Rocha.

No entanto, o mais importante de tudo é o fato de que o filme mostra toda a efervescência que está ocorrendo no mundo por parte de representantes de diversas nacionalidades envolvidos com a causa da preservação ambiental, da qualidade de vida, da fome, da situação das populações da África, da dominação econômica de países como EUA e os da Europa, com os mais diversos matizes, desde vegetarianos a empresários do ramo de produção de alimentos, grupos trabalhando com o problema do lixo, outros com a proteção aos animais, às florestas, grupos indígenas com suas preocupações de sobrevivência étnica assolados por madeireiros, empresas de mineração, construções de hidrelétrica, enfim, toda essa somatória de problemas que estão afetando o equilíbrio da ecologia do Planeta.

Aquelas imagens e as coisas que foram ditas pelas pessoas revelam que as coisas não estão paradas, parecendo sempre do mesmo modo costumeiro como conduzimos nossas existências. Numa escola, por exemplo, existe uma rotina de acordo com um sistema onde tudo gira em torno de aulas, notas, reuniões de pais e professores, dando a impressão de que não está acontecendo nada lá fora. Daí, a necessidade de que esse filme circule por toda parte, pelos mercados e feiras, pelas escolas, sobretudo, para que as pessoas despertem para a urgência de pensarem, refletirem e intervirem em seu meio social e natural.  E que se dêem conta de que existem milhares pessoas trabalhando por toda parte para garantir qualidade de vida para as gerações vindouras. É preciso tirar nossa juventude dessa apatia, ela precisa retomar seu orgulho jovem, sua capacidade de resolver problemas. O governo não deveria ter tanto medo disso. Não se deve temer a capacidade dos jovens de arregaçar as mangas e partir para a operação das grandes mudanças que precisam ser feitas. Isso deve ser incentivado.

É louvável o empenho do ex- Binho Marques em ter propiciado as condições para que esses jovens talentosos e interessados aprendessem a fazer cinema com qualidade técnica, artística e, melhor ainda,  antenados com os temas pungentes da atualidade, colocando-os em pé de igualdade como os jovens das grandes capitais que também estão fazendo filmes. Todas as condições foram dadas, inclusive com a construção de uma sala de cinema de qualidade anexa ao Cine Teatro Recreio destinado agora só para espetáculos musicais e teatrais.

Só é preciso que o Governo atual, do mesmo partido, não deixe esse pique cair. Foi importante ter destinado o cinema para os cine-clubistas fazerem suas projeções e debates mas é preciso oferecer as condições para que esses filmes realizados por cineastas da terra circulem por toda a cidade e demais do interior, e até que seus realizadores possam também fazer  oficinas de cinema repassando, como se diz, aquilo que aprenderam, a sua experiência. É preciso tirar nossos jovens da frente da TV, das telas de seus computadores, estimulando-os a cair na vida, no bom sentido, a olhar em volta, ver o mundo lá fora, aprender a usar uma câmera. Melhor ainda se trouxer o Capovila de volta para novos cursos de cinema a revelar novos talentos. Ou outros Capovilas. Esse movimento não pode arrefecer, nem podemos correr o risco de que pessoas talentosas decidam ir embora a procura de novos horizontes. E depois, sabemos bem o tipo de influência nefasta que esses filmes da indústria norte-americana exercem sobre a juventude…

Assuntos desta notícia


Join the Conversation