Fome: agente corruptor da moral

Roberto Castro Ossami, estudante de Filosofia e leitor assíduo dos meus artiguetes,  pede para que eu dê um exemplo de corruptor da moral. Pensei, não muito, e cheguei à conclusão, os pedantes diriam ilação, que entre todos os corruptores da moral, de forma subjetiva, a fome mundial é a campeã.

No começo do mundo, conta as Sagrada Letras, Esaú, perito caçador, certo dia chegou ao seu habitat com uma boa presa sobre os ombros. Fazia planos de  tratá-la e, é obvio saborear a mais completa das refeições. Entretanto foi traído pelos sentidos. O cheiro agradável do guisado com mistura de lentilhas, que seu irmão Jacó já tinha preparado o encheu de desejo.  Estava com fome e muito cansado e ali estava o melhor dos pratos já pronto para comer.

Quedou-se as propostas do seu irmão trapaceiro. Encheu a pança de um bom ensopado.  Contudo perdeu o que tinha de mais precioso: Seu direito patriarcal de primogenitura. Mais tarde arrependeu-se amargamente. De lá para cá, tem sido essa a história do homem, se deixando corromper pela cruel circunstância da falta do que comer.

A partir da Conferência Mundial sobre Alimentação (l974),  há  30 anos, as Nações Unidas estabeleceram que: “todo homem, mulher, criança, tem o direito inalienável de ser livre da fome e da desnutrição…”. Portanto, a comunidade internacional deveria ter como maior objetivo a segurança alimentar, isto é, “o acesso, sempre, por parte de todos, a alimento suficiente para uma vida sadia e ativa”. Por outro lado,  informações recentes garantem que os países, com tecnologia avançada possuem cacife para produzir e alimentar o resto do mundo. O discurso é bonito, mas o capitalismo ufano não permite que aflore a idéia de repartir o pão com quem está morrendo a míngua.

Exemplo disso é o caso da  Somália em que  750 mil pessoas morrerão nos próximos meses se alimentos não chegarem até eles. A verdade é que ninguém sabe, realmente, quantas pessoas morrem de fome a cada ano. Muitos países subdesenvolvidos apresentam estatísticas irregulares e muitas vezes não confiáveis, de modo particular quando concernentes a mortes de crianças. Há estatísticas não muito recentes dizendo que 12 milhões de recém-nascidos morrem todos os anos, por causa dos efeitos da subnutrição nos países em desenvolvimento. Li em algum lugar que  “A metade das pessoas que vivem em pobreza absoluta estão no sul da Ásia, principalmente na Índia e Bangladesh. Um sexto delas vive no leste e sudeste da Ásia.

Outra sexta parte está no sub Saara africano. O resto divide-se entre a América Latina, norte da África e Oriente Médio. Nestas regiões tropicais ou situadas no hemisfério sul, a que comumente damos a denominação de Terceiro Mundo, calcula as Nações Unidas que pelo menos 100 milhões de crianças vão para a cama faminta, todas as noites”. Além disso, há regiões onde impera a fome propriamente dita, e outras causas indiretas, como doenças e más condições físicas agudas, que prostram milhares de vítimas, visto terem perdido a resistência devido à subnutrição. As mortes ocasionadas por essas condições nem sempre são relatadas pelos membros da família; as vítimas de doenças poderão ser relacionadas entre as que morreram de causas naturais, ou desconhecidas.

No Brasil o Governo Federal, especialmente o governo do PT, que detém o poder nos últimos  8 anos, esmera-se com programas de toda ordem, para combater a miséria e a fome de milhões de brasileiros. Apesar da dificuldade de fazer chegar à mesa do pobre os meios para debelar a fome, principalmente porque segmentos corruptores estão no caminho, reconhecemos os avanços conseguidos pelo atual governo em conter a fome dos inditosos. Esses segmentos corruptores, por décadas, fragmentaram o pão que deveria chegar integralmente à mesa do pobre. No Nordeste, de passado recente, essa praga de gafanhotos destruidores atendia pelo nome de “indústria da fome”.

Estou entre aqueles que crêem que a sociedade, da qual faz parte toda coletividade, tem parcela de culpa no grande tributo da desgraça social em que estão metidos milhares de famílias, constituídas de pais desempregados e filhos, na maioria crianças e adolescentes,  porquanto com fome,  corrompidas por toda sorte de perversões.

É isso aí, meu caro Roberto Ossami. Mais poderia ser dito, contudo o espaço aqui é circunscrito!

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