O velho do Rio Acre

O velho homem se recosta à beira da Gameleira em plena manhã de segunda. Ele não faz nenhum movimento que pareça ser premeditado, tampouco demonstra quaisquer planos para o futuro. Espontâneo, apenas se senta e observa a vista, sem se importar com o passar das horas. À sua frente, não há muito que se ver além de um ralo fio d’água ‘marrom abarrentado’ do Rio Acre. Todavia, é, aparentemente, neste quase ‘nada’ que se foca a sua atenção.

O cara estranho fica ali, imóvel, vislumbrando o rio. Seu ‘companheiro’ prejudicado pela falta de cuidados do povo da sua cidade. Mas o que toma conta de seus pensamentos não são estes danos que poderiam ter sido evitados e muito menos o que poderia passar a ser feito dali pra frente para salvar o rio de um triste destino. Para o sujeito ali estático, seu tempo na Terra já não é mais tão longo quanto o daqueles jovens perto dele, correndo contra as suas rotinas. Sendo assim, salvar o ‘amigo natural’ da inevitável extinção já não lhe parecia mais um dever seu.

Naquele instante, só o que fazia sentido pra ele era cintilar nos seus olhos cansados e saudosistas o curso do rio. A singularidade dos seus vários tons misturados entre marrom e castanho. 

A seu ver, o ciclo do Rio Acre era como um resumo simplificado de toda a sua vida. Estar ali perto dele era como um porto seguro da sua existência. Algo que fizera parte de toda a sua trajetória. O volume majestoso no ‘inverno’ representava o melhor do seu passado. Os anos que marcaram seu auge. Já a escassez durante o ‘verão’ era como se fossem os pontos baixos. E, infelizmente para ele, a ‘esfumaçada’ manhã daquele dia mostrava um rio com o mais baixo volume dos últimos 40 anos.

Logo, o idoso começou a resgatar no imo da sua mente as piores recordações da sua vida. E a tristeza perdurou até o fim da ‘visita’ ao rio. E o mesmo se repetiu no dia seguinte, e no seguinte e seguinte, até o fim do verão, quando as primeiras ‘chuvas permanentes’ do início de novembro começaram a cair. Mas, desta vez, os seus efeitos já não foram mais os mesmos dos de outras épocas, frustrando o velho homem. As chuvas já não puderam encher o rio o suficiente para lhe dar a mesma vitalidade característica do inverno.

E, assim, o velho homem parou de ver no rio seus melhores momentos. Suas alegrias. Só o que passou a ter nas suas visitas à Gameleira foi a melancolia de relembrar e remoer as suas tristezas. E, neste ritmo, foi só questão de tempo até que a vida daquele senhor perdesse todo o sentido. Sem ter um fim maior, a morte rapidamente encontrou um atalho para levá-lo. Mas ela não parou com o velho! O próximo da sua mórbida lista foi o Rio Acre. Daí pra frente, sem o rio pra abastecer a cidade, a fome dela se tornou insaciável e a ceifadora nunca mais parou de fazer vítimas.

*Tiago Martinello é jornalista.
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