Um lar para quem tem AIDS

Numa terra aonde campeia as hepatites, a AIDS também tem seu lugar. Desde a década de 80, quando começaram a aparecer no Brasil os primeiros casos, restritos até então aos homossexuais, existe um enorme tabu envolvendo os pacientes portadores do HIV.

Mesmo depois de tanto tempo e de se ter descoberto medicamentos que possibilitam ao portador uma vida relativamente normal, o preconceito é ainda muito grande.

Recebi uma carta de apelo, esta semana, que me molhou os olhos. Na carta ela pede para não ser identificada e me conta um “segredo” que não devo colocar no ar no meu programa na 93,3FM.

M.J.N.A é uma mulher de 42  anos, mãe de 3 filhas (que não moram com ela), que conseguiu um benefício de um salário mínimo por mês por um período de dois anos.

Em sua carta ela conta que paga R$ 250,00 de aluguel e o restante usa para pagar a luz e comprar algum alimento.

M.J.N.A é doente, portadora do HIV, foi diagnosticada em 2009, faz tratamento e não consegue trabalho fixo. Tem que tomar a medicação em horários certos e um dos remédios precisa ficar na geladeira.

Além de ter muito pouco dinheiro para sua subsistência ela conta que seu maior drama é com relação a moradia.

Todas as vezes que as pessoas da vizinhança descobrem que ela tem AIDS, a discriminam, tratam de forma diferente, e ela procura outra casa, em outro bairro, para se mudar.

Ela diz em sua carta que está cansada de viver trocando de lugar para morar.

Sem saber mais o que fazer para ganhar uma casa, ela faz um apelo: “Assim que começaram as inscrições das casas eu me inscrevi mas nunca fui sorteada. Se eu ganhasse uma casinha ficaria bem melhor para mim. Daria para comprar mais alimentação”.

Alimentação adequada é fundamental para que ela se sinta mais forte.

O número da inscrição de M.J.N.A é 1020723. Liguei para ela.

Ela me disse que por três vezes procurou a Secretaria de Desenvolvimento Social e não conseguiu falar com ninguém para apresentar os documentos médicos que comprovam sua doença na tentativa de sensibilizar os responsáveis pela entrega das casas a lhe dar uma casinha.

Fiquei imaginando o que passa uma pessoa com AIDS, sozinha, com pouquíssimo dinheiro, morando de aluguel e se sentindo excluída da sociedade por causa da doença.

Não deve ser fácil.

M.J.N.A já teve uma casa própria mas que teve que vender para tratar do câncer de sua filha mais velha.

O ditado popular diz que Deus dá o frio conforme o cobertor mas, no caso de minha ouvinte, seu cobertor está mais curto que o frio que a vida está lhe impondo.

O apelo é tocante.

Um lar para quem tem AIDS!

* Eliane Sinhasique é jornalista, radialista e publicitária
e-mail: [email protected]
Twitter: @sinhasique

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