As propagandas televisivas

A maioria das propagandas  televisivas das emissoras locais  apresenta discrepância com relação as das redes de emissoras que se apresentam com as falas pausadas ou no mínimo articuladas de forma natural, ao contrário do som estridente e sincopado das ruidosas peças publicitárias locais. Sabemos que existe um curso de publicidade nesta cidade, onde técnicas de divulgação e propaganda são analisadas e estudadas, sendo por isso difícil de entender essa ausência de sensibilidade ou de senso estético para horror dos nossos ouvidos.

Mesmo entre alguns locutores de rádio percebe-se a mesma coisa, eles emitem notícias sobre fatos e eventos como se estivessem narrando partidas de futebol, num flagrante e excessivo sensacionalismo, sem a menor necessidade disso. A comunicação é uma arte soberana, permeia tudo, está em tudo, como humilde serva que deixa tudo impecável  sem ser notada. Quando é notada é porque anda mal das pernas.

É o caso de ficarmos a pensar de onde vem isso das pessoas que trabalham nesta cidade com anúncios e propagandas julgarem que falar aos gritos e de forma exasperada colidindo com os marcadores dos segundos é a fórmula adequada para esse tipo de coisa.

Se atentarmos para o aspecto antropológico bem que podemos imaginar que o  isolamento das pessoas em suas colocações de seringa, muitas vezes sem ter com quem conversar por semanas a fio, tenha desenvolvido esse hábito de falar gritando e ainda, tenha atrofiado a capacidade de ouvir. Assim, todos gritam e ninguém ouve ninguém.

No campo da sociologia aquele isolamento gerou uma sociedade onde a prática da discussão e do debate na busca de soluções em âmbito coletivo parece muito difícil de acontecer, ainda mais porque o próprio trabalho de extrator vegetal não propiciou ascensão social sendo mais assemelhado a um cativeiro. Os debates que ocorriam eram restritos aos círculos de seringalistas e comerciantes que gravitavam em torno do PSD ou do PTB, se davam em torno de questões pertinentes como o da elevação do Acre à Estado, por exemplo.

Nos anos setenta ativistas locais imitavam os discursos de alguns grupos de classe média dos grandes centros por ocasião do processo de redemocratização do país. A discussão e o debate também eram muito restritos, e pouco a pouco essas pessoas foram se acomodando ao modo mais fácil de participação política no Acre que é ser conduzido, sendo leal e obediente.

Mesmo a prática da discussão e do debate requer sustentabilidade. Como as coisas todas giram em torno do governante e seu staff, vivemos num campo de guerra permeado de trincheiras tipicamente bosniano. Uma renúncia impressionante, por parte de muita gente, ao ato simples de pensar, refletir e se expressar de forma minimamente distanciada. Têm os olhos cegos para com o todo, as mandíbulas  cerradamente fechadas em volta das partes.

No aspecto histórico podemos sugerir que a experiência dos ditos nordestinos desbravadores mais se assemelha ao cair numa arapuca do que mesmo a um pioneirismo. Notadamente asfixiados pela política econômica da classe que os dominava, a dos seringalistas e grandes comerciantes, os seringueiros jamais conheceram algo como conquista de direitos, justiça social entre outros, por si mesmos, no modo da luta organizada como ocorria nos grandes centros onde o operariado estava mobilizado e se justificava o aparecimento de partidos comunistas. Isolados, os seringueiros, seus raros encontros se davam ao redor do barracão atraídos pelo par cachaça e sanfona.

De modo que o uso da voz é coisa muito rara por estas plagas. Aprender a retórica, arte do bem falar, do discurso bem articulado é algo muito prestigiado, alvo de imitações muitas vezes grotescas, prerrogativa dos bem nascidos, determinante na estruturação dos quadros políticos locais e quase sempre cheio de falácias. O que explica também o fato de não sermos uma sociedade de leitores, pois ler é uma variação de ouvir o pensamento do outro.

Essas propagandas que são feitas aos gritos sem a menor vergonha em estar importunando as pessoas em suas casas enquanto descansam ou assistem a um programa de televisão, ocorrendo também com aqueles condutores de veículos automotores que alocam auto-falantes onde alguém grita como em casos de emergência para anun-ciar os preços de alguns produtos ou até mesmo uma reunião religiosa nas redondezas, é prova inconteste de que a prática de falar e ouvir,  não é típica da nossa terra, nem por parte dos que chegaram primeiro, dos que aqui nasceram nem dos que chegaram, posteriormente, para fazer a América.

A expressão “só é bom quem vem de fora”, pode contribuir para elucidação desse problema das pessoas não perceberem o quanto são mal-educadas e  mesmo indecorosas, no sentido estético, quando lançam,  por exemplo, descartáveis pelas ruas e calçadas dando mau exemplo para sua próprias crianças. Trata-se de um desprezo por si mesmo que incorre no desprezo por todos em sua volta. Existe um desamor muito flagrante nessa área de colonização tardia onde as pessoas foram tratadas como descartáveis pelas agencias do governo junto com os financistas da borracha gerando esse “complexo de inferioridade”.

As propagandas que são feitas fora não agridem nossos ouvidos e possuem mesmo um elevado teor artístico. Portanto, os fazedores de propagandas locais, televisivas, de rádio ou de autofalantes em veículos motorizados, parecem contribuir ad infinutum para que esse traço cultural, significativo e importante, se perpetue em nosso meio sócio-cultural, meio que velado, meio que às claras, de que só é bom o que vem de ou é feito fora. Podemos chamar a isso de síndrome de colonizado.

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