Do tempo do jatobá

Eu não sei se gostava mesmo de comer jatobá, mas, eu comia, junto com a meninada em minha volta, todos os anos, quando esse fruto aparecia nas nossas rodas. Junto com as mais diversas brincadeiras sempre havia um tipo de fruta conforme seu tempo e desse modo, nos movíamos num calendário ecológico bipartido conforme as chuvas e o estio do verão entremeado com as coisas que comíamos desde sardinhas pescadas no Rio Acre ali mesmo, no Centro da cidade, aos biribá, marilana, tamarindo, sapoti, pitanga, seriguela, fruta-pão  e jenipapo. Estes ainda podem ser encontrados na feira do mercado municipal, mas as outras são muito raras, quase extintas.

Desse modo nós tínhamos uma existência conectada com os ciclos da natureza, uma existência orgânica com o meio envolvente, tanto que em mim apareciam furúnculos nas pernas após o período das mangas, isso porque existe algum princípio ativo nesse fruto que põe prá fora certos resíduos do nosso corpo. É óbvio que esse fenômeno era visto como enfermidade e por isso minha mãe em certas horas vinha colocar uma colher com Terramicina em xarope, na minha boca. Na verdade, era um remédio saboroso.

Certa vez um amigo meu, o antropólogoAbel Kanaú,  me contou que nas aldeias dos indígenas Kulina, de tempos em tempos, todos os indivíduos eram acometidos de febre, ficavam tremendo, em suas redes, durante alguns dias, até a febre passar. Ele disse que isso ocorria sempre na passagem do verão para o inverno e vice-versa e que eles entendiam isso, pois não ficavam perturbados, simplesmente esperavam a onda passar. Um dos problemas de ordem da saúde pública é o fato das pessoas correrem em busca de atendimento médico-hospitalar por qualquer coisa.

Obviamente eu não sou de correr em busca de atendimento médico por qualquer coisa porque ouvia minha mãe dizer às pessoas que aqueles pequenos tumores – como nós denominávamos o furúnculo – sempre apareciam no período das mangas. Isso parece ser uma coisa tão simples ou trivial, mas, foi fundamental para o meu entendimento de que as coisas que aparecem no meu corpo podem ser reações ou resultantes de fenômenos naturais.

Um segundo problema de ordem de saúde pública é o fato das pessoas não se darem conta de que as enfermidades são fenômenos naturais e que muitas vezes podem vir a desaparecer caso seja permitido, aos corpos, liberdade e tempo para resolver o problema.
As ondas de febre que acometiam os Kulina seriam denominadas de viroses e tratadas provavelmente com paracetamol. Ingerindo ou não certos medicamentos as enfermidades seguem seu curso e obedecem aos ciclos naturais, sem contar que cada organismo possui ritmo próprio, mais ou menos energia vital, maior ou menor capacidade de resolução dos problemas. Mas, a cada um valeria maior respeito e atenção ao invés de perturbação com tanta medicação que, falando sério, algumas vezes não servem de muita coisa.

A vida segue seu caminho como um curso d’água ora em linha reta ora sinuosa, preenchendo as reen-trâncias, chegando aos locais mais recônditos, buscando saída quando encurralada, enfim, nada se ganha impedindo a própria vida de seguir seu curso. Muitas vezes a vida está operando com mestria em nossos organismos quando são acometidos de algum tipo de enfermidade como aparecimento de furúnculos ou febres e vemos isso como um mal.
Eu já fui uma naturalista muito radical. Anos atrás, meu filho rapaz me perguntou por que todos os amigos deles tinham uma marquinha no braço e ele não. Eu respondi que aquela marquinha era de vacina, provavelmente BCG. Quando ele estava na idade da vacinação eu não deixei que lhe aplicassem nenhuma delas, à exceção da gotinha que entrando no trato digestivo não poderia causar danos. Na verdade, não fiz isso sem entrar em acordo com demais naturalistas. Lembro-me que perguntei ao Paulo Klein, em plena rua, o que ele achava da tríplice, não a tríplice aliança da segunda grande guerra, mas a tríplice das vacinações governistas. Ele respondeu: “olhe, Fátima, para o sistema imunológico, é a mesma coisa que apanhar da Polícia Militar, da Polícia Federal e da Polícia Civil, ao mesmo tempo”. Ele não disse, em momento algum, não vacine seu bebê, mas a resposta acima foi suficiente para que eu não vacinasse meu filho. E depois ele mamava e muito, do leite escorrer pelo canto da boca. E eu sabia que o leite materno é muito prodigioso.

Meses depois, encontrei a Dra. Terezinha Zanata, por coincidência, na mesma calçada, quase que no mesmo lugar, quando ela me espinafrou, me chamando, entre outras coisas, de irresponsável. Naqueles anos nós éramos todos do PT independentemente das diferenças que existiam quanto à visão de mundo e nos encontrávamos  por toda parte, sem distanciamentos.

O que estou querendo dizer é que em matéria de saúde existem muitas visões ou interpretações, desde que haja oportunidade de acesso às informações. Existe uma Portaria Ministerial, por exemplo, que autoriza a abertura nos postos de saúde pública, dos serviços de fitoterapia, acupuntura e homeopatia, tratamentos médicos que não se contrapõem, necessariamente, aos tratamentos tradicionais ou costumeiros.

Na cidade do Rio de Janeiro o atendimento ambulatorial por dezenas de homeopatas é muito grande, ao ponto de alguns deles que trabalham no Instituto Hahnemanniano do Brasil da rua Frei Caneca, passarem a fazer isso com exclusividade. Pessoas chegam às cinco da manhã para conseguir consulta. Eu mandei buscar por sedex uma fórmula para diabete para um amigo, que surpreso, viu baixarem as taxas de quase trezentos para noventa. Enfim, existem muitos interesses em jogo. Coisas ótimas que existem não são noticiadas.

De tudo, o mais importante seria pensar processos de retorno ao modo antigo quando as crianças comiam as frutas da época e do lugar, comiam em meio à brincadeiras sem obrigação de ter que comer fruta.  Até hoje eu não sei se gostava ou não de jatobá, mas eu o comia.

Assuntos desta notícia

Join the Conversation