Dolorosa vergonha

A maioria das pessoas pensa que as coisas estão sempre evoluindo para uma melhoria geral de tudo. A rapidez das invenções científico-tecnológicas tornando a vida mais confortável, as comunicações mais rápidas, nos dá essa impressão. Ledo engano. A história anda para trás e muito, no sentido de que as pessoas continuam com aquelas práticas que julgávamos relegadas ao passado, tais como censurar matérias jornalísticas, com o objetivo de deixar as pessoas isoladas, alienadas e desinformadas.

Todas essas cenas que assistimos através dos noticiários televisivos, mostrando atos de guerra, prédios, casas, cidades em ruínas sob o fumo que sai das explosões; pessoas ensanguentadas sendo transportadas em macas, pessoas mortas, de todas as idades, por todos os lados, em que pese o leitmotiv, ou seja, jazida de petróleo ou manancial subterrâneo,  o que pesa mesmo é a intolerância  mútua  que permeia tudo como um deus às avessas.

O homem é um ser tribal. Mesmo morando numa metrópole, entre milhões, um indivíduo só consegue se relacionar com um número reduzido de pessoas, a saber, amigos de escolas, familiares, colegas de trabalho. São as tribos urbanas. A dificuldade de amar o próximo por parte do cristão é muito grande por ser um apelo de cunho universalista. Tornar-se um cosmopolita é tarefa árdua, para alguns raros intelec-tuais. Novalis, do romantismo alemão sugere o seguinte método: aproximar o que está distante e distanciar o que está próximo demais, para conseguir compreender tudo e sentir-se em casa por toda parte.

A atitude do editor do jornal da TV Acre, filiada à Rede Globo, passa ao largo de quaisquer reflexões desse tipo. Ele noticiou a chegada do senador Aécio Neves, mostrou as imagens da sua caminhada no pátio do aeroporto, ao lado das lideranças tucanas locais o seu rosto, por muitos segundos, onde as expressões se sucediam na medida em que ele falava pressupondo estar se comunicando com o povo acreano, através da referida emissora, sem nunca imaginar que o editor do jornal televisivo iria silenciar o áudio, ou seja, impedir que nós, telespec-tadores, ouvíssemos o que ele estava dizendo. É o fim. Aonde chegamos!

Como é que um homem que já foi presidente interino da República, presidente da câmara dos deputados federais –  cuja soma de votos, para isso, ultrapassou a soma de todos os outros candidatos – ,  deputado mais votado do país em 1998, governador de Minas Gerais e agora senador, poderia imaginar que sua breve fala de saudação ao povo acriano jamais chegaria aos nossos lares por um gesto de truculência jornalística que alguns chamam, gentilmente,  de manipulação da informação?

O isolamento do Acre permanece, sobretudo, para a grande parte da população que não tem recursos para sair do Estado, para comprar informação. É como se houvesse um muro invisível, mas, nem por isso menos incisivo, que coloca as pessoas de um lado e de outro, conforme critérios bastante conhecidos tais como ter ou não ter dinheiro e, isso é determinado, na maioria das vezes, por uma maior ou menor proximidade com as esferas governamentais.

A proximidade das eleições pode fazer com que as pessoas beirem à histeria, dado o pânico que se apodera delas de uma situação repentina de carência ou insegurança caso a oposição chegue ao poder, tão acostumadas ou acomodadas a uma confortável situação do tipo “onde estou ninguém vai mexer comigo”. Uma tolice grande pensar assim porque todos os governantes precisam de figurantes. Quem silenciou a voz de Aécio Neves nesta quinta, poderá, quem sabe, silenciar a voz de Tião Viana no amanhã que só a Deus pertence. Quem fere a ética profissional segue a qualquer um que lhe pagar para isso.

Muitos poucos souberam que Aécio Neves visitou o Acre e menos ainda que  ele foi quem criou o pacote ético que acabou com a imunidade parlamentar para crimes comuns; o Conselho de Ética da Câmara e o Código de Ética e Decoro Parlamentar; a Ouvidoria Parlamentar responsável por encaminhar ao Tribunal de Contas da União, à Polícia Federal ou ao Ministério Público denúncias de irregularidades apontadas pela população; a Comissão Permanente de Legislação Participativa que passou a permitir a apresentação de propostas de entidades civis para formulação de projetos que pudessem tramitar na câmara; a disponibilização das votações dos projetos de lei na internet, entre outras.  E que ele, na Constituinte, foi quem propôs a emenda que instituiu o direito de votar aos 16 anos. E que, no seu segundo mandato, votou a favor do impeachment de Fernando Collor.

Por tudo isso, teve sua voz cassada, quando deveria sim ter sido convidado para um café no Palácio do Governo do Acre, este, mais acanhado que o Palácio da Liberdade, mas, o palácio de um povo orgulhoso de sua história.  Nem que isso acontecesse pela arte do fingimento. Quando ele poderia falar do seu famoso programa Choque de Gestão quando governador de Minas, da construção da Cidade Administrativa com projeto de Niemayer e padrões tecnológicos que atendem à sustentabilidade, do incrível programa de Poupança Jovem em andamento no Estado de Minas, para os egressos do ensino médio que recebem três mil reais para começar a vida. Com os microfones da Rádio Difusora a postos, como antigamente.

Enfim, o que Minas faz o povo do Acre não pode saber. O povo do Acre não pode saber de nada que é feito de bom nos demais Estados. A rádio difusora não estava lá no aeroporto, não fez uma mínima entrevista, depois de leitura prévia da atuação dele como parlamentar e como governante de Aécio Neves. Que estreiteza de visão, meu Deus!

De mais a mais, apesar de ser neto de Tancredo Neves, do PMDB, Aécio também é filho de um deputado da Arena como os novos dirigentes do PT local e de uma família de políticos. E que vem lutando contra a preponderância dos políticos paulistas que nunca mais permitiram um candidato mineiro à Presidência da República. Sem contar que o povo mineiro recebeu Marina Silva com um carinho enorme. A nossa vergonha é dolorosa.

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