A hora da vez II

Conforme começamos a ver na semana passada, a criação do Território Federal do Acre não significou a pacificação de sua população. O movimento revolucio-nário foi substituído quase que imediatamente pelo movimento autonomista. A criação do Club Político 24 de Janeiro, em Xapuri, já nos idos de 1904; o assassinato de Plácido de Castro, em 1909; a revolta autonomista do Juruá, em 1910; a revolta de Sena Madureira, em 1912; e a de Rio Branco, em 1918; foram claros sintomas desta realidade.

É que o Acre havia passado então a ser dividido entre os autonomistas, que reivindicavam a autonomia política do Acre, e os unionistas que apoiavam que o Acre fosse governado pela União até que tivesse condições econômicas e sociais de se manter. Como se pode imaginar, pelos acontecimentos que acabei de citar acima, esta divisão levou a verdadeiras lutas armadas entre as facções e resultaram em intervenções militares do exército ou da marinha. Ou seja, não era brincadeira não…

Algum tempo depois, já no início da década de 30, mudanças constitucionais possibilitaram que o Acre passasse a eleger dois deputados federais para representar o Acre no Congresso Nacional. Para tanto foi necessário criar dois partidos que foram oficialmente chamados: Legião Autonomista e Partido Constructor. Mas, como brigar era necessário e as rixas entre autonomistas e unionistas já faziam parte do cenário político acreano, eles tratavam-se fraternalmente pelos codinomes Corocas e Urucubacas e a peia continuava amuada…

O tempo passou e novas mudanças políticas do país, ocorridas após a Ditadura Vargas, possibilitou um quadro pluripartidário que levou à transformação da Legião Autonomista em PTB e o Partido Constructor em PSD, além da criação de outros partidos como a UDN, o PCB, etc. Tudo levava a crer que o cenário ficaria mais animado e menos bipolarizado, então.

Ledo engano, na hora das eleições os partidos menores ficavam reféns do PTB e do PSD. O que contava mesmo, portanto, era a boa briga entre petebistas e pessedistas que prosseguia com as galhofas e as arengas de sempre.

Esta situação, inclusive levou a uma história tão inacreditável quanto emblemática. É que, como vimos acima, o PTB se originou da Legião Autonomista. Mas, como foi Guiomard Santos, eminente líder do PSD, que entrou com o projeto de transformação do Território em Estado no Congresso Nacional e o PTB não poderia de nenhum modo ficar a favor do Guiomard, o jeito foi os petebistas se posicionarem contra a autonomia acreana. Assim, durante toda a tramitação do projeto autonomista no Congresso e a acirrada campanha que ocorreu em todos os municípios acreanos, o PSD defendeu a autonomia, enquanto o PTB defendeu que o Acre permanecesse como Território Federal. Numa inversão total e surreal dos parâmetros históricos destes partidos.

Novas mudanças políticas ocorridas no âmbito da Ditadura Militar, já com o Acre como Estado, corroboraram o jeito acreano de fazer política instaurando um bipartidarismo forçado. A Arena, no lugar do PSD e o MDB no lugar do PTB, que passaram a dominar nosso cenário político, obrigando aos pequenos partidos de esquerda a atuar como clandestinos no interior do MDB, e os de direita na Arena.

Porém, como não há mal que sempre dure, o processo de abertura e de redemocratização do país, ocorrido a partir de 1982, possibilitou a legalização de muitos do partidos clandestinos e o surgimento de uma multidão de novos partidos. Entretanto, mais uma vez, nada mudou no Acre no sentido de que quando chegavam as eleições, todo mundo se dividia em dois lados pra escolher e defender seus candidatos ao governo estadual.

Mais recentemente ainda, na virada dos anos 80 para 90, assistimos ao surgimento de um novo reagrupamento de partidos progressistas de um lado, sob a sigla FPA, e conservadores de outro, sob a sigla MDA. Bipolarização que, em certas eleições, chegou a assumir a arquetípica fórmula do “Encarnado” contra o “Azul” que caracteriza outras manifestações culturais amazônicas, como por exemplo: a cavalhada de Sena Madureira.  

E assim, seguimos nós por aqui inventando cizânias políticas suficientes para justificar conflitos, brigas e arengas, mas também ironias, piadas e comentários das mais diversas naturezas e configurações.

Assim, não é de se estranhar que as atuais discussões sobre o horário do Acre tenham descambado, em grande medida, para uma intensa disputa entre os prós e os contras. Nas quais, muitas vezes, o que menos importa são as tais razões alegadas, mas a motivação necessária para manter vivo o velho e tradicional gosto acreano por uma boa briga.

* Marcos Vinicius Neves é historiador ([email protected])

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