A hora da vez

O Acre é muito difícil de ser compreendido por quem não o conhece razoavelmente. Acredito que isso se deve ao fato de que este lugar possui marcas tão próprias, específicas e profundas em seu tecido social que às vezes nem conseguimos perceber que existem e apenas convivemos com elas, inocentemente.

Por exemplo, a forma acreana de lidar com a política é um caso sociológico (ou patológico) que bem merece algumas dissertações de mestrado e teses de doutorado. Não conheço outro lugar no mundo em que o povo goste tanto da disputa política e nem que ela seja tão acirrada quanto aqui… 

As eleições normalmente são verdadeiras guerras campais, nas quais “do pescoço pra baixo é tudo canela”. Mas tão logo passe a apuração, tudo vira uma grande festa, onde quem escapou da Balsa se sente com todo direito de bagunçar com a vida de quem embarcou nela. Mas, mesmo gostando muito disso tudo, ainda assim, às vezes, me assusto.

É o caso do rumo que as discussões sobre a hora do Acre tomou. Precisa brigar tanto? Precisa tratar essa questão com tamanha irracionalidade? Quando o melhor seria exatamente o contrário: discutir com calma, avaliar os prós e contras, pesar e repesar suas consequências e só então tomar uma decisão. Porque, afinal, se fez tamanha briga? Os mais apressados haverão de bradar: a culpa é de fulano porque fez assim ou assado? Ao que os outros responderiam: é nada… a culpa é destes que não enxergam um palmo na frente do nariz…

Pois bem, penso que ambos os lados exaltados estão errados. E, mais do que discutir o mérito da questão da hora do Acre, ou tomar partido pela hora velha ou pela nova, me interessa discutir porque as coisas tomaram este rumo exacerbado e, por tantas vezes, incoerente… Até porque penso que se trata de uma daquelas marcas profundas que nos foram legadas pela própria história do Acre. Resta-nos reconhecê-la. Assim peço permissão aos leitores mais imediatistas para fazer uma retomada de certas histórias antigas que talvez nos ajudem a ver com um pouco mais de clareza… talvez…

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Neste 2012, em que a superação da condição de Território Federal e a transformação do Acre em Estado irá completar cinquenta anos, me parece um ótimo momento para problematizar o processo político que caracteriza a formação do Acre que conhecemos.E tem uma coisa que sempre chamou minha atenção na história política do Acre: sua bipolaridade essencial. Pois, vejamos!

Tão logo o Acre começou a se entender por lugar, já manifestou essa tendência a um comportamento bipolar exacerbado. Naquela época, final do século XIX e início do XX, os vales acreanos estavam diante de uma encruzilhada definitiva. Ou se assumiam como Bolívia ou viravam logo de fato e de direito Brasil. Diante disso a sociedade local logo se dividiu em duas metades irreconciliáveis. Aqueles que tinham negócios e interesses comuns com os bolivianos e aqueles que se sentiam ameaçados ou insultados pela instalação de um governo “estrangeiro” na região.

A partir daí, com a instalação de uma “guerra”, é fácil imaginar o tratamento com que os “revolucionários” brindavam os que eram pró-bolivianos: traidores e vendidos, eram os mínimos e mais polidos termos empregados então. Do outro lado os “revolucionários” também recebiam denominações à altura: tais como doidivanas, aventureiros, ambiciosos, etc., etc. e etc. Marcas e títulos que se perpetuaram de tal forma no imaginário acreano que alguns são ainda hoje empregados não apenas para designar os que viveram aquela época conturbada, mas para tratar os desafetos do presente. O que seria cômico se não fosse trágico.

Entretanto, o fim da Revolução Acreana, a anexação destas terras ao Brasil e a criação do Território Federal do Acre não significou o fim da divisão da sociedade local, mas sim motivação para uma nova divisão: a briga visceral entre autonomistas e os unionistas. Mas, esse é assunto para tratarmos, se tudo correr bem, na semana que vem… até…

* Marcos Vinicius Neves é historiador ([email protected])

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