Inflação em baixa abre espaço para reajuste dos combustíveis

O atual momento de baixa inflação corrente no Brasil pode ser oportuno para que a Petrobrás consiga convencer o governo a elevar os preços dos combustíveis, cuja defasagem em relação ao mercado externo é crescente nos últimos meses, avaliam analistas consultados pela Agência Estado.

Nesta quinta-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15 (IPCA) ficou em 0,25%, taxa muito aquém da previsão mais otimista do mercado, que era de 0,32%. Com isso, o tema dos preços de combustíveis volta à pauta.

Em comentário sobre o IPCA-15 enviado por e-mail, o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otávio de Souza Leal, afirma que “talvez fosse a hora de a Petrobrás pensar seriamente em elevar os preços dos combustíveis”. Segundo ele, um aumento em torno de 10% na refinaria (o que reduziria pela metade a defasagem estimada) teria impacto em torno de 0,40 ponto porcentual no IPCA de 2012, “o que seria mais do que compensado pela ‘folga’ que o BC ganhou nesse 1º trimestre”.

Isso, prossegue ele, acabaria com a discussão em torno da necessidade do reajuste, “melhorando as perspectivas para a empresa, retirando um dos empecilhos para que o mercado de etanol volte a funcionar melhor e contribuindo para que tenhamos uma ajuda no controle da inflação dos serviços, via redução da renda disponível”.

Nos cálculos do economista, o IPCA em março deve ficar entre 0,35% e 0,40%, “o que levaria a inflação ao fim do primeiro trimestre para algo próximo de 5,40% no acumulado em 12 meses, 0,50 ponto abaixo do esperado pelo BC em dezembro de 2011”. Dessa maneira, com essa folga, o governo nem precisaria, em caso de eventual reajuste dos combustíveis, utilizar da desoneração tributária via Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) para atenuar o impacto sobre os preços, uma vez que o espaço para isso já é restrito. “Até daria para a Cide acomodar (o efeito), mas traria mais um problema para a questão da arrecadação”, opinou.

Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco WestLB, concorda com a avaliação. “Dados os preços do petróleo elevados, o governo até pode se convencer de que a inflação está realmente convergindo para o centro da meta e permitir um reajuste nos preços de combustíveis”, diz. Porém, acredita que, se vier de fato o aumento, o mercado deve rever para cima suas expectativas para o IPCA. Rostagno projeta taxa de 5,31% para o IPCA este ano, estimativa que não considera um aumento nos preços dos combustíveis.

Para o economista Pedro Ramos, do Banco Sicredi, os últimos dados da inflação, sobretudo a queda forte do IPCA-15 em março, até podem ajudar o governo a decidir sobre o reajuste nos preços de combustíveis, mas esse anúncio, se ocorrer, deve ficar mais para o segundo semestre. “Ainda é cedo, o ano mal começou. Se pararmos para pensar em termos de defasagem dos efeitos da política monetária, veremos força mesmo a partir segundo trimestre.

Talvez isso (inflação baixa) ajude a tomar a decisão no segundo semestre, quando haverá mais certeza sobre a inflação no final do ano. Hoje ainda é precipitado, ainda mais que são alguns movimentos que estão facilitando esse comportamento do IPCA”, afirma, dando como exemplo os alimentos. “Imagino que o governo vai querer ter um pouco mais de certeza.”

Para Ramos, trata-se de uma decisão delicada, dado o efeito em cascata que um reajuste de preços de combustíveis traz para uma série de outros preços, como os de serviços, por exemplo. Na sua avaliação, quando e se houver aumento, o governo deve primeiramente usar o espaço ainda restante de desoneração da Cide para atenuar o efeito sobre o IPCA para, num segundo momento, deixar o repasse impactar a inflação.

Contraponto
Ao contrário dos demais economistas, o sócio-diretor da RC Consultores Fábio Silveira é categórico: “definitivamente, este não é o momento de anunciar alta de preços de combustíveis”. Silveira argumenta que pressões inflacionárias de produtos agropecuários no atacado se avizinham e devem transformar-se em alta de preços ao consumidor no mês que vem.

“Os institutos de pesquisa estão captando movimentos defasados. Vamos ter em breve pressão inflacionária dos preços agrícolas. Essas altas sugerem que essa possível alta de preços de combustíveis deve ser postergada. Isso (anúncio de reajuste de combustíveis) não seria prudente agora”, afirmou.
Entre as principais fontes de pressão, Silveira cita preços de soja, arroz, frango e feijão que devem começar a ser captadas pela inflação no varejo no curto prazo. “É coisa de duas ou três semanas”. (Agência Estado)

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