Rindo na cara do perigo

“É divertido. A adrenalina vai lá em cima ó, maninho!” Costumam dizer os adolescentes que se reúnem em grupos para se lançar de cima das pontes Metálica, de Concreto e da Passarela Joaquim Macedo, as preferidas da garotada.

 Mas nem sempre essa “brincadeira” divertida acaba bem. Na tarde de quinta-feira, 9, um dia nublado, de nuvens carregadas, o Rio Acre havia passado, mais uma vez, a sua cota de transbordamento. A correnteza estava forte e os balseiros não paravam de passar. Aleff Uchoa um estudante de 16 anos, cheio de vida, desafiou a si mesmo e aos amigos.

 Estava empolgado para pular da passarela Joaquim Macedo, que fica no Novo Mercado Velho. Só de cueca, Aleff encosta na barra de segurança da passarela, respira fundo e se joga de uma altura de mais de 10 metros, depois de ouvir as instruções do colega que o incentivava. A cena foi toda filmada pelo celular do amigo do garoto. “Esse homem é maluco,” diz o amigo na gravação que registrou os últimos momentos de Aleff. Desde então nunca mais foi visto. Ele era filho único.

 Inconformada, a família, que inicialmente suspeitava de suicídio, disse que Aleff se jogou porque foi induzido pelo amigo maior de idade. Uma denúncia contra esse amigo, que não teve o nome revelado, foi feita na delegacia. Tentar encontrar culpados nesses momentos é sempre mais fácil do que aceitar a realidade dos fatos. Aleff tinha consciência do que estava fazendo. Não cogitou que poderia ser fatal, mas decidiu arriscar.

 Aos domingos, costumo passear pelo Novo Mercado Velho, como boa acreana que sou, gosto de olhar o rio. Ali, sempre tem policiais militares, pelo menos nos dias em que eu vou, que fazem a segurança do local. Nunca vi nenhum deles repreender ou alertar esses meninos.  Mesmo na presença deles, eles se jogam, e se jogam e se jogam lá de cima, sem ter noção do perigo que aquilo representa para vida deles. Entre um pulo e outro, é possível ouvir gritos, aplausos e assobios daqueles que acompanham a cena.

 Quantos Aleffs ainda precisarão ser levados pelas águas do Rio Acre para que essa brincadeira, de uma vez por todas, seja levada a sério?

*Geisy Negreiros é jornalista. e-mail: [email protected]“>[email protected] twitter: @geisynegreiros

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