Quase um novo drama

Já se passaram quase 2 anos, mas ainda lembro bem da tristeza pairando sobre o cemitério Morada da Paz naquela inexpressiva manhã de segunda-feira. Da angústia misturada à revolta e ao desejo de justiça escancarado no semblante das dezenas de homens de preto que rodeavam aquele caixão marrom-tabaco. Mas, acima de tudo, a imagem que não sai da minha cabeça é o olhar perdido e o choro desiludido de uma viúva ao tentar dar entrevista sobre a tragédia que recaía em seus ombros. Assim foi a cobertura jornalística do enterro do agente penitenciário Roney Barbosa Vidal, 31 anos.

 Confissões à parte, admito que aquele foi um dos dias em que mais entrei em conflito com a frieza e neutralidade inerente ao exercício de minha profissão. Era impossível estar ali e não se comover, não sentir aquela consternação que tomava conta de todos. De fato, o enterro inteiro de Roney foi marcado por um grande pesar, mas pelo menos uma lição boa ‘poderia’ ter sido tirada de tudo aquilo. Bem, poderia… mas parece que não foi.

 Neste domingo, foi com imensa apreensão que voltei a sentar diante do computador para redigir a matéria sobre o atentando de mais um agente penitenciário, Jairo Plínio, ‘J.P.’. Ele foi baleado 2 vezes no braço por um ex presidiário quando chegava na casa de sua mãe. Seja pela graça de Deus ou por uma jogada de muita sorte do destino, ‘J.P’ não chegou a correr nenhum risco fatal. Mas até quando vamos depender da sorte para casos como este?

 Ao escrever meu texto, meus dedos narravam os fatos, mas minha mente só conseguia repetir a palavra: ‘sacanagem!’. Quer dizer, imagina o quanto deve ser ruim ir trabalhar e voltar de lá com tanta insegurança. Chegar em casa e pôr em risco a vida das pessoas que você mais ama no mundo. Enfim, ser alvejado na frente da casa da própria mãe.

 Isso tudo é inaceitável demais. Alguma atitude séria, drástica, precisa ser tomada para garantir a segurança e preservar a integridade dos agentes penitenciários do Estado. Porque assim não dá! Para um assassino encarcerado, a vingança infelizmente acaba se tornando um dos pilares da sua vida. Ao sair, o que ele mais vai querer é consumá-la. E cabe à sociedade e a todas as instituições do sistema prisional não dar esta chance a eles.

 O autor dos disparos precisa ser preso e deve pagar pelos seus crimes, conforme rege a Lei. E ao Estado e ao Poder Judiciário fica o dever de garantir que a punição do covarde que cometeu este crime se limite aos trâmites legais. Porque quando ele for pego, há o risco de ele sofrer na ‘Lei do Presídio’, passando de agressor à vítima. E se for pra ser assim, o que se fomentará é uma onda ininterrupta e sem sentido de vingança. Afinal, é como já dizia Gandhi: ‘quando é olho por olho, todo mundo acaba cego’.

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