A vida real

Personagens, enredos, diálogos, narrativas, e tudo o mais que constituem as novelas da Rede Globo não se ancoram na vida real.  Os bons são totalmente bons e os maus totalmente maus. Além disso, não se vê a ninguém pagando nem reclamando de contas, tarifas, juros, imposto de renda, essas coisas que estressam a nós, comuns, no dia-a-dia. Os personagens até falam sobre os fatos da vida nacional, mas de modo genérico,  enredados em teias fantásticas criadas pelo autor da novela onde os motivos principais são os romances, as traições, as banalidades, enfim. Talvez porque na maioria dos lares brasileiros a vida transcorre exatamente como nos lares representados nas novelas da Rede Globo.

É bem provável que o padrão de novelas da referida emissora tenha concretizado grande sucesso exatamente por isso, pela produção e reprodução de um comportamento alie-nado. Nunca se ouve um personagem falar sobre esse caso da votação do código florestal,  sobre o aquecimento global, a situação dos presídios, a crise europeia, a questão da Palestina, nem em outros fatos do noticiário internacional, enfim, os personagens só vivem as situações dos pequenos dramas que afligem famílias e comunidades localizadas. É de se pensar se são as novelas que determinam esse comportamento geral do povo brasileiro ou se são os padrões culturais do mesmo que determinam o teor das novelas.

Se a Rede Globo pode determinar o padrão de comportamento geral do brasileiro bem que poderia mostrar um personagem jovem, fashion, mas envolvido e comprometido com as causas ambientais, tais como poluição dos mares e rios, coleta seletiva de lixo, entre outras. Do mesmo modo nunca se vê um fato envolvendo alguma categoria da classe dos trabalhadores em movimento organizado por melhores salários e condições de trabalho. Quando os personagens são ricos o modo como ganham tanto dinheiro permanece velado.

Na última novela das oito, foi angustiante assistir ao esforço feito pela atriz Christiane Torloni a transitar do quarto para a sala, da sala pro quarto, dar uma voltinha de carro, aparecer em mais uma ou duas casas, descer e subir sempre a mesma escada, reduzida a uma mera garota propaganda de lingerie. Parece ser grande o desperdício de talento, em novelas assim.

Pior que tudo, esses personagens dessas novelas quase nunca discutem sobre cinema e teatro, nem literatura, com raras exceções, e de modo vago, quando bem poderiam estimular as pessoas a irem ao cinema, a irem ao teatro, a ler bons livros, através de falas entusiasmadas sobre um determinado filme, um determinado livro. Eles deveriam falar dos nossos autores e compositores, gastar três segundos com um personagem comentando as obras de Modigliani no Masp.

Desse modo, a grande emissora que detém uma tremenda audiência, não contribui em quase nada para diminuir esse abismo cultural entre erudito e popular, underground e mainstream, popular e cult, enfim, essas agudas diferenças que persistem como característica da nossa sociedade onde ainda é grande o número de analfabetos. Por outro lado, com apoio de governantes aliados seus elabora programas de educação tipo telecursos para evidenciar que seus dirigentes se importam com a situação dos desfavorecidos.

Da novela do Miguel Falabella, que acabou no mês passado até que não podemos falar que foi uma usina de alienação, apesar de muitas baboseiras. Ao contrário de Aguinaldo Silva que parecia torturar Torloni com aquele personagem demente, Falabella pareceu deixar Marília Pera muito à vontade para viver o seu personagem de forma criativa e verossímil; ele abordou também questões morais importantes como a diferença de comportamento de duas irmãs, Camila e Cláudia, uma sendo capaz de fazer sacrifícios pela pessoa que ama ao contrário da outra, do tipo egoísta focado só para si mesmo.  

Além disso, Falabella apresentou o espiritismo  com leveza, humor e de forma didática. A personagem Mãe Iara morreu e não quis subir para as altas esferas, não quis se afastar das coisas do mundo dos vivos. Com esse quadro ele expôs com tranquilidade, para o grande público, um dos temas preferidos dos espíritas que é o livre arbítrio, o fato de que cada um é responsável pela sua própria evolução ou crescimento espiritual e que por isso mesmo  decide por si mesmo a sua própria posição ou lugar no mundo espiritual, tudo isso sem aquela carga de cenário fantasmagórico e excesso de mistificação como comu-mente são tratadas essas questões pelo cinema, demais novelas e pela mídia em geral.

O referido autor trabalhou a problemática da discriminação e do preconceito apresentando um travesti de bom caráter, íntegro, educado, mas que ao tornar-se rico ficou temeroso de mudar-se da favela onde residia para um local de moradias da classe A por receio das agressões de que poderia vir a ser vítima. Quando a mãe do personagem, interpretada por Marília Pera o convida para ir visitá-la em Londres, ela o conforta, dizendo assim: “não se preocupe, Londres é uma cidade muito civilizada”.

Uma frase genial dita pela Marília Pera foi: “o que é constante na vida é a mudança”. De fato, tudo pode mudar, de uma hora para outra tudo muda e em nada se parece com o modo como era antes. Grande parte dos problemas da maioria das pessoas, até mesmo o aparecimento de certas enfermidades têm por causa a dificuldade de compreender isso.

No geral, os novelistas sabem como criar suspense, representar cenas de violência urbana,  representar a maldade humana no modo como ela é praticada no cotidiano. Mas não sabem ou não podem trazer o telespectador para a vida real. Mesmo porque já disse Caetano: “ou feia ou bonita, ninguém acredita na vida real”.

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