Os bois e os carros

Uma portaria municipal na região ganhou notícia na mídia, junto com imagens de várias crianças merendando num refeitório de escola, uma delas terminando de comer uma maçã tendo em sua frente sobre a mesa uma palma de bananas maduras. A notícia de que naquele local os alimentos, por força de lei, deveriam ser sempre saudáveis me fez lembrar um comentário de uma amiga que trabalha numa escola do nosso município, sobre alunos a quem ela viu enfiando sues dedos nas gargantas, enojados, depois que lhes foi revelado que a carne do dia, que eles ingeriram, era de carneiro.

Como se denota, a cultura é um fator muito importante. No Sul é muito comum as pessoas de todas as idades se alimentarem de maçãs. No norte e nordeste brasileiro, a carne de bode, cabrito, carneiro e porco também são comuns nas mesas da maioria das famílias. Por que será que os alunos dessa escola onde minha amiga trabalha sentiram nojo da carne de carneiro e não gostaram nada de saber que também come-riam carne de porco?
As novas gerações acostumaram-se simplesmente a comer carne em tudo, em especial a carne moída, nos salgadinhos da cantina da escola e demais lanchonetes, va-riando apenas quando se trata do consumo de carne de frango que também é recheio de salgadinhos, como a saltenha, ou salteña, já que a sua origem é boliviana. A maçã, para esses adolescentes e crianças é mais aceitável ou tolerável do que uma fruta como a banana. Em geral, as pessoas de idade é que apreciam a banana, não os mais jovens. Entre estes muitos nem gostam de comer frutas, de nenhum tipo. As gerações de hoje são as gerações da pecuária pós-setenta.

Um problema a se considerar é o fato de que, em se tratando de gestão pública, o carro segue sempre na frente dos bois.

Não existe independência por parte das equipes de governo para elaborarem seus próprios planos ou políticas, devido aquela tão propalada e enjoada simbiose entre governo e classe empresarial. Não sei se nos dias atuais o prédio da Merenda Escolar ainda fica parecendo um grande armazém, tal celeiro de faraó, de pacotes de bolachas da Miragina.

Quando ficamos sabendo que estudantes estão sendo alimentados, via merenda escolar, de carne de carneiro e de porco, ficamos a pensar se isso não é uma política econômica do governo para estimular, compensar ou apoiar criadores de animais de pequeno porte para corte. Bom, muitas ovelhas foram trazidas da Bahia, lemos matéria sobre isso, nos jornais locais, meses atrás. Serão elas que as crianças e jovens estão sendo induzidos a comer nos refeitórios das nossas escolas?

Enfim, negócios são negócios e educadores não se envolvem com esses assuntos de economia. Mas, deveriam! Por algum artifício, os educadores foram convencidos a só pensar em termos de ensino, aprendizagem, didática, todo esse jargão da Pedagogia. Como se a educação fosse algo próprio, território separado das outras coisas, focado apenas no fato de que professores devem ensinar e alunos devem aprender.

Lamentavelmente, durante os anos que passam nos bancos escolares não é permitido, aos estudantes, aprender noções de espaço, no sentido da convivência e do respeito ao outro, sendo esse outro, desde uma pessoa ao próprio lugar em que vive. Por isso que as pessoas, nesta cidade, são capazes de despejar em qualquer lugar, os restos dos seus lanches, seus copos descartáveis, suas latinhas vazias, até mesmo sobre uma plantinha que está ali em seu jarro enquanto a pessoa que a plantou nem sonha que estão desrespeitando a sua dedicação.

Alguém já disse que todos nós entramos no mundo com nosso corpo e com ele saímos. As nossas existências podem ser bem qualificadas ou não dependendo do cuidado que dispensamos para com nossos próprios corpos. A terceira idade, como se sabe, é a idade da colheita, quando se colhe o que se plantou, ou seja, pode-se gozar de relativa saúde ou acumular preocupações com a mesma bem como com gastos com medicinas.

No plano do indivíduo existe relativa liberdade para se adotar a forma que se bem quiser, desde um quadro de obesidade a uma aparência magra e isso tem muito a ver com a qualidade dos alimentos e bebidas ingeridas, afora outros fatores, alguns de natureza psíquica como a ansiedade ou mesmo aquele velho pecado capital, a gula.     

No entanto, quando se trata do aspecto coletivo a alimentação pressupõe costumes, hábitos e cultura, estabelecidos em um ambiente particular.    

Não podemos crer que exista política de educação ambiental se esse aspecto, muito relevante,  não é absorvido pelas políticas educacionais. A merenda escolar não deveria existir para estimular os negócios já existentes de empresários consolidados. Isso é intervencionismo estatal, claro, e muito primário, diga-se de passagem.

A política educacional deveria colocar os bois na frente do carro, ou seja, organizar o cardápio da merenda escolar de acordo com os frutos e cereais da nossa terra, em sua diversidade e época própria dentro do calendário natural. Daí, poderíamos esperar que esses alunos, os adultos de amanhã, possam vir a ser pessoas que valorizem a sua terra em sua particularidade. Mas será que gestores alienados podem contribuir para a formação de adultos não alienados?    

A consciência nunca pode ser uma coisa segmentada e sim um fato total, que para se expandir precisa da experiência. Ninguém pode adquirir consciência ecológica apenas lendo sobre ecologia, nos livros. E assim, estaremos sempre dando voltas, como um cachorro faz, tentando morder o rabo.

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