Sobre jornais e escolas

Há alguns dias, uma professora da rede pública solicitou que eu escrevesse uma matéria jornalística, para que ela a apresentasse aos seus alunos, como modelo. Ela me sugeriu, inclusive, um tema relativo às comemorações de abril, no caso, a execução de Tiradentes. Percebi, enquanto ela falava comigo, que a mesma nunca havia lido um jornal, e que rela-cionava o fato da inconfidência com o escravismo. Em resposta, eu lhe sugeri que adquirisse alguns jornais, fizesse recortes das matérias das diversas seções do jornal, distribuísse entre seus alunos, de maneira que os mesmos fizessem leituras e  comentários sobre as notícias da cidade, da vida política, do esporte, da página policial, etc. Penso que para aprender, muitas vezes, é preciso ver, ouvir, pegar, aprender a fazer, cheirar, sentir as coisas.

O ideal seria que eles pesquisas-sem, antes, em biblioteca ou internet, sobre o tema em foco e que saíssem às ruas em seus bairros para entrevistar moradores das várias faixas etárias e variados ofícios ou profissões, a respeito de possíveis conhecimentos sobre Tiradentes e esta data, 21 de abril. Desse modo, a atividade, a espontaneidade, a criatividade, se-riam forças propulsoras no processo da aprendizagem. Mais que isso, tal atividade possibilitaria que eles também percebessem que os conteúdos dos livros de uma biblioteca não encontram correspondência nas mentes da grande parte das pessoas com as quais eles convivem, por estarem tão envolvidas em sua lida diária e tão alheias ao que se passa  nesse sentido das causas que fazem com que as coisas sejam sempre do mesmo modo.

Afinal, teria alguma importância saber que no dia de hoje, há duzentos e vinte e três anos atrás, um homem foi enforcado em praça pública no Rio de Janeiro, pelos poderes instituídos, tendo seu cadáver esquartejado e enviado assim, aos pedaços, em malote de correios sobre o lombo de um cavalo, para a cidade de Ouro Preto onde ficaram pendurados nos quatro cantos da praça central, salgados e expostos assim ao clarão do dia e ao luar, como um pesadelo do qual ninguém poderia acordar, para as pessoas das camadas médias e baixas ficarem convencidas de que a elas jamais seria permitido alterar a ordem das coisas? Sim, porque de todos os inconfidentes, entre padres e poetas, filhos da classe alta que tinham estudado em Coimbra e Lisboa e que teimavam em transferir para o Brasil a nova cultura política e econômica do liberalismo, o único que foi executado a mando da Coroa, foi justamente ele, Joaquim José, uma pessoa comum.

Como se vê, com respeito à interdisciplinaridade esta seria uma boa ocasião para que os alunos reforçassem seus conhecimentos em História, de forma triste, claro, perante aqueles que não detêm informação nenhuma.
Antes, porém, de saírem em campo, seria bom que aqueles alunos fossem pesquisar na internet  sobre a história do jornal, como, por que, quando e onde surgiu para saberem que existiu na Roma antiga a Acta Diurna, um boletim de anúncios do governo esculpido em pedra e metal que ficava exposto em locais públicos. E que na China da dinastia Han existia o tipao, folhas de notícias do governo; na dinastia Tang, o kaiyuan Za bao – boletim da corte – que também publicava notícias do governo escrito em seda, à mão e lido pelos oficiais do governo.

E ainda, que na república de Veneza, após 1500, ou seja, na era moderna, das grandes navegações e descobrimento da América, passaram a publicar um periódico mensal, Notízia Scritte, que custava uma gazetta, boletim escrito à mão, utilizado para distribuir notícias da política, da economia e do ambiente militar, não sendo destinado para o grande público. E que o primeiro jornal da História, como o conhecemos, segundo algumas fontes, foi impresso por Johann Carolus,  em Estrasburgo, no ano de 1605, com um título muito extenso, após a invenção da prensa móvel, claro.

Com essa pesquisa, a professora pode ajudar seus alunos a perceberem que os primeiros jornais circulavam apenas no âmbito das cortes sem que o povo tivesse acesso a ele, veiculando as informações importantes dos respectivos governos e que o fato dos jornais passarem a circular em meios populares corresponde ao processo mesmo histórico de conquista de liberdade e de direitos por parte da maioria. E com isso, a reflexão: haverá liberdade aqui em Rio Branco, os populares lêem jornais, sabem o que está acontecendo? Conseguem compreender uma matéria de jornal local?

A partir do estudo e análise de uma edição de jornal, suas várias seções, desde cultura, esporte, política, economia, artigos de opinião, cartas de leitor, páginas policias, colunas sociais, uma professora pode despertar a atenção dos seus alunos para o que está acontecendo nesta sociedade na qual o mesmo ainda está inserido só de corpo.  Lembrando ainda que, a edição de um jornal consiste numa seleção de notícias, afinal, muitas coisas acontecem, mas nem todas são reportadas. Ótima oportunidade para conduzir seus alunos a começar a pensar sobre os silên-cios, ausências, enfim, sobre o que não é falado ou escrito nas várias imprensas, faladas e escritas.

É óbvio que nem os jornalistas sabem planejar e dar uma aula, nem grande parte dos professores sabe como funciona um jornal, como ele é feito. Além do mais, a maioria das escolas não tem assinaturas de revistas nem jornais, sejam nacionais, regionais e locais. Uma experiência como essa, sugerida por mim a uma professora, vai exigir da mesma que compre jornais. Como fazer com que os professores da rede pública passem a ler jornais?

Bom seria se existisse um sistema de coleta nas residências que detêm assinaturas de jornais e revistas Veja, Época, Isto É e outras, para distribuição nas escolas da área, sem esquecer as escolas rurais. Tudo isso dá muito trabalho e não existem funcionários para fazer esse tipo de coisa. Os jornalistas da cidade, desde redatores de jornais impressos a locutores e apresentadores de jornais televisivos poderiam circular pelas escolas fazendo palestras ou dando mini-cursos. Para isso, seria necessário que os diretores das nossas escolas, que foram obrigados a fazer curso de gestão escolar para serem elegíveis, compreendessem a importância dessa interação em jornalismo e ensino. Ao que parece, esse curso de gestão escolar é meramente técnico, bem ao gosto de um ex-governador e, nada, quase nada político, ao modo ate-niense. Eles, diretores e diretoras, não pensam que a leitura de jornais e revistas constituem instrumentos de trabalho. Nem imaginam que existem outros setores na sociedade co-responsáveis com o processo educacional.

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