Cinco pra lá, três pra cá… o futebol e a política

O futebol é um dos esportes mais populares no mundo. Praticado em centenas de países, tornou-se tão popular graças a seu jeito simples de jogar. Basta uma bola, equipes de jogadores e algo que marque o gol, para que, em qualquer espaço, crianças e adultos possam se divertir com o futebol. Na rua, na escola, no clube, no campinho do bairro ou até mesmo no quintal de casa, desde cedo jovens de vários cantos do mundo começam a praticar esse extraordinário jogo.

O que me chama a atenção não são as jogadas sensacionais dos craques, os belos gols ou, ainda, os erros de arbitragem. O que me chama realmente a atenção são as declarações dos torcedores, antes e depois dos jogos, bem como as cenas de uma verdadeira guerra urbana, que presenciamos constantemente. Ou seja, a paixão que o futebol nos desperta.

Ainda me atrai também o comportamento da torcida de um time que está sendo derrotado, quando pede mais brio aos seus “guerreiros” em campo e chega ao cúmulo de virar as costas para os jogadores, quando não é atendida, mesmo pagando ingressos caríssimos. Tudo isso nós torcedores deveríamos fazer também fora de campo, ao não permitir que certos “políticos” se utilizem da nossa boa-fé e paixão, para nos enganar.

Devemos lembrar sempre e reverenciar nossos grandes ex-jogadores e suas carreiras que marcaram a história do nosso esporte mais popular. Mas, sem perder de vista que alguns jogadores de futebol, incontestavelmente craques nos gramados, não são tão craques assim na condução de suas próprias vidas e vivem “pisando na bola”. Acabam muitas vezes, sem perceberem até, fazendo parte de um jogo pequeno e mesquinho de interesses e desvios injustificáveis. Por outro lado, é louvável a reverência das instituições políticas aos clubes de futebol de história memorável. Como vimos nessa semana lá no Congresso Nacional que homenageou o centenário do Santos Futebol Clube. Ocasião em que o craque Neymar, cercado por uma multidão, pôde até bater uma bolinha na tribuna da Câmara dos Deputados.

Já pensaram se os brasileiros passassem a tratar os políticos da mesma forma que tratam os jogadores de futebol? Aplaudindo-os quando realizam lances ousados ou quando marcam seus mais belos gols! Imagine que bom seria aplaudir aquele partido ou parlamentar que – imbuído do sentimento de amor à causa pública e, consequentemente, ao povo – agisse como grande tribuno, defendendo projetos de relevância social e não pessoal, num verdadeiro gol de placa? Como seria bom também ver as galerias do parlamento tomadas por cidadãos que, da mesma forma que no futebol, se mostrassem indignadas com a aprovação de projetos populistas e desprovidos de contrapartida social.

Lembro do Maracutaia, emocionante campo de futebol de várzea da Estação Experimental. Berço de grandes talentos do futebol, do jornalismo e da política; espaço comunitário de convivência; um retângulo futebolístico de grandes encontros de companheirismo e solidariedade, no sentido epistemológico destas palavras.

Que o futebol está no cerne da cultura nacional, todos nós sabemos. Mas poucos tem consciência das implicações que isso traz à vida prática. A alegria, o lazer, a recuperação psicossomática é fundamental para garantir uma vida com qualidade. Porém, deve haver uma justa medida entre o ócio e as responsabilidades da vida.

Quando o lazer toma o centro da vida, acaba deslocando nossa atenção para fatores não tão importantes e chegamos à alienação. Age, então, como um anestésico, que ameniza as dores da vida e cria um mundo artificial. Ainda mais perigoso se for usado como instrumento político-ideológico, ou ação politiqueira, descontextualizada de atitudes éticas, educativas, cooperativas, solidárias e humanitá-rias. Cinco prá lá, três prá cá. Pra quem não se lembra o placar do tragicômico jogo que recentemente foi realizado sob pretexto de gesto solidário, mas que, pela forma equivocada com que foi conduzido, só atendeu aos objetivos e interesses de alguns.

Quem não quer ver o Brasil como hexacampeão? Sem dúvida, um sonho nacional. Mas, pouco percebemos que com Copa ou sem Copa, com campeonato ou sem campeonato, com jogo amistoso ou oficial a vida continua. A vida deve continuar, mas com responsabilidade. Porque agora nos damos conta de que temos uma eleição pela frente e que esse outro jogo já começou.

José Alicio Martins da Silva é Bacharel em Educação Física/Especialista em Esporte e Lazer ([email protected])

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