Uma terra arrasada por herança

Esta semana foi marcada pela desastrosa votação do novo Código Florestal na Câmara dos Deputados. Foi com verdadeiro espanto que vi essa polêmica e importante matéria tramitar na Câmara sem nenhuma discussão ou participação dos segmentos sociais envolvidos ou impactados por esta lei. Foi uma tramitação e votação feitas com estranha e sintomática apatia da sociedade organizada e dos veículos de comunicação. Especialmente se levarmos em consideração de que se trata de uma matéria que está em discussão há longos treze anos no Congresso Nacional.

Uma situação espantosa ainda mais se compararmos com a forma como essa mesma matéria tramitou no Senado Federal, onde foi realizada uma ampla discussão em que todos, literalmente todos os setores sociais, foram ouvidos, consultados e chamados para a construção de uma mediação que fosse boa para a produção agrícola, para a conservação dos recursos naturais, para o país, enfim!

Como disse o senador Jorge Viana, por ocasião da aprovação de seu relatório que corrigia as graves distorções já aprovadas na Câmara dos Deputados: este não poderia ser ainda o código dos nossos sonhos, mas aquele que mais de adequava à realidade brasileira e mediava os fortes interesses conflitantes. Infelizmente o bom exemplo dado pelo Senado foi mais uma vez destruído por uma parte dos deputados federais que, em silêncio, sem interlocução com a sociedade, fez valer e preponderar o interesse de alguns poucos que só enxergam mais e mais lucros no curto prazo, ainda que isso possa prejudicar o país no médio e longo prazo.

A aprovação deste novo Código Florestal da forma como foi feito pela Câmara dos Deputados foi reveladora do fato que o movimento ambientalista em nosso país possui influencia sobre a sociedade em geral, mas apresenta enorme fragilidade em relação às instituições públicas e forças políticas. Além do que foi um ato de irresponsabilidade que joga por terra todos os esforços feitos pela atual geração de brasileiros que soube conquistar grandes avanços na área ambiental, comprometendo a herança que nossos filhos irão receber.
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O Século de Tarauacá
Não poderia deixar passar essa semana sem homenagear o aniversário de Tarauacá, ocorrido em 24 de abril, quando este município completou 99 anos de sua implantação.

Até porque não podemos esquecer que se trata de um município que possui a quarta maior população do Estado e ocupa o terceiro lugar em extensão territorial, que conta com quatro projetos de assentamento, com três Florestas Estaduais – criadas em 2004, pelo então governador Jorge Viana – e com duas reservas extrativistas.

Isso sem mencionar que Tarauacá é o segundo município do Acre em concentração de Terras Indígenas do Estado, com oito áreas, que equivalem a 9,8% da área do município, proporcionando aos povos Jaminawa e Kaxinawá, boas condições de vida e de preservação sócio-cultural. Portanto, trata-se de um dos municí-pios mais preservados e com maior potencial para a implantação de uma economia florestal sustentável no Acre.

Mas a grande riqueza mesmo de Tarauacá é a sua história e cultura. Já tratei desse assunto em outro artigo desta coluna ao falar da grande quantidade de músicos de excelente qualidade nascidos nesta cidade. O que talvez se deva à existência da saudosa Sociedade Musical Euterpe Tarauacaense, ou da Sociedade Sportiva e Dramatica Tarauacaense, ou do tradicional FECANTA, Festival da Canção de Tarauacá, que conta com vinte edições, sendo o mais antigo e contínuo festival de todo o Estado.

Ou, talvez, seja produto da necessidade de ocupar o belo Teatro Municipal, hoje Teatro José Potyguara, exemplo da típica arquitetura seringueira (como dizia o saudoso Zé Leite) e das tradições artísticas acreanas. Talvez até nem seja mesmo por nada disso e esse seja apenas mais um dos mistérios e maravilhas que o Acre é capaz de produzir.

De qualquer modo, quero desejar meus parabéns a Tarauacá e a todos os seus filhos nestes 99 anos existência e de importantes contribuições para o Acre!

Marcos Vinicius Neves ([email protected])

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