Sem sentido

Ao contrário da aversão histórica impregnada na cabeça de muita gente da minha amada terra, eu não sou uma pessoa com antipatias contra os bolivianos. No dia a dia, ouço muito frases como: ‘eles não prestam’ ou ‘são todos gananciosos’. E posso afirmar, com o orgulho de ter certeza, que todas estas acusações passam indiferentes aos meus ouvidos.

Não me entenda mal, leitor! Não sou nenhum tipo de ‘defensor’ dos bolivianos, tampouco idealizo fundar no Acre alguma ONG ‘Não Xingue os Bolivianos’. Para simplificar, o que penso deles é que são o povo que mora no país ‘vizinho’. Só isso. Nada mais. Se são quaisquer outras coisas, não é dever e muito menos mérito meu fazer julgamentos.

No entanto, não posso me abster de criticar esta investida truculenta covarde e, sobretudo, desumana que o Exército dos nossos vizinhos fizeram nesta semana, contra as famílias de agricultores acreanos que moram nas fronteiras entre Capixaba e a Bolívia. Entre outros crimes não relatados, os soldados queimaram casas, levaram a produção de cas-tanhas e até ma-taram os animais destes produtores simples, honestos e batalhadores.

Pode até parecer que estou puxando pro lado dos acreanos. Mas, acreanismos à parte, a verdade é que não há sentido algum nisso tudo. De fato, qual era a necessidade de aprontar toda esta intimidação? Além de ordens malucas, o que motivou aqueles homens a se armarem para ir destruir, judiar e tirar o pouco que aqueles trabalhadores levaram árduos anos para juntar?  ‘Retaliação’, ‘vingança’, ‘aviso’ ou qualquer outro termo que se use, a verdade é que esta empreitada não passou de uma grande ‘palhaçada’.

Mais do que crime ou transgressão diplomática, o que estes militares – independente de serem ‘bolivianos’ ou de qualquer outro país – fizeram foi um atentado soberbo contra a simplicidade. Contra o trabalho árduo e digno. Sério, às vezes eu até me pergunto: que raios é que dá na cabeça de um soldado desses (com todo respeito a seu oficio) ao agir assim? Será que ele acredita de verdade que está ‘defendendo a sua pátria’? Ou será que é só pelo prazer cruel de fazer o mal a gente que não merece?

A situação é grave. É incomoda. Por isso, merece que sejam tomadas todas as providências possíveis, dentro do campo da legalidade, para dar um fim a tais ofensivas enquanto elas ainda são apenas isso. Porque depois, podem se transformar em ‘conflitos’. E estes, acredite, geram muito mais perdas e são mais difíceis de apaziguar.

No primeiro momento, as autoridades acreanas se mobilizaram muito bem, com eficiência, no sentido de evitar novos entraves. Uma resposta  digna de elogios. Mas, vale destacar, esta tensão entre os agricultores acreanos e os bolivianos não começou ontem. Portanto, não vai ser num dia que tudo estará resolvido.Será preciso muito empenho para se insistir na busca por uma solução definitiva.     

* Tiago Martinello é jornalista. e-mail: [email protected]

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