Entre a vaca e o cachorro

 A produção de leite no Acre assusta pelo festival de problemas não resolvidos. Quem melhor resumiu o cenário foi o presidente da Federação de Agricultura e Pecuária, Assuero Veronez. “Temos baixa produção que acaba por inviabilizar a atração de investimentos, especialmente na construção de um grande laticínio. Não tendo laticínio para absorver grande produção, também não se investe em rebanho, tecnologias”.

 Veronez conclui, em declaração ao suplemento Acre Economia, que esse “ciclo vicioso” vem se mantendo ao longo do tempo. Não é uma análise qualquer e nem tampouco feita por pessoa desautorizada. É um diagnóstico real.

 E o pior é que não há previsão de solução ao curto prazo. Os produtores alegam que não há segurança em se investir em gado leiteiro. Os prováveis empresários que se arriscariam no setor desconfiam que não há produção de sustente o investimento em um grande laticínio.

 Os bons exemplos acreanos têm se sustentado por abastecer um laticínio da Italac em Rondônia, que garante bom preço e até pagamento antecipado, mesmo quando há problemas alheios ao produtor acreano.

 Esse tratamento é bem diferente do dispensado aos produtores pelos laticínios locais já disse, também em entrevista ao Acre Economia, o chefe-geral da Embrapa, Judson Valentim. Outra declaração qualificada.

 E o poder público onde fica nessa história? O governo fica refém disso tudo. Amarga o histórico de ter deixado falir um laticínio como a Cila; de ter quebrado o pacto de confiança com o produtor e de não conseguir dar respostas práticas a um setor da economia que faz circular riqueza no meio rural como poucos.

 E não é por falta de esforço. A Seap, Senar, Embrapa têm bons resultados a apresentar. O problema é que são excelentes experiências pontuais. Orientados por essas instituições, há produtores que agregaram tecnologia e conseguem tirar 10 litros por vaca: uma produtividade muito acima da registrada em Rondônia, de 3,6 litros por animal.

 Mas, essa situação não é a regra. De fato, não se sabe com exatidão quantos litros se produz e se consome de leite no Acre: os números oficiais registram 116,7 mil litros diários (a região mais populosa produz 86,6 mil litros). A produção artesanal e o comércio informal dificultam a análise.

 O “ciclo vicioso” de que fala Assuero Veronez lembra muito a imagem de um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Teimoso e mais rápido, o rabo parece estar à frente. Sem indústria porque não há produção? Ou sem produção porque não há indústria? Sem produção porque não há plantel geneticamente bom e nem política de preço?

 O Governo acena com a possibilidade de comprar alguns milhares de vacas para distribuí-las. Vai resolver o problema? Provavelmente, não porque dificilmente não serão três mil cabeças a mais que resolverão o problema de sustentabilidade para o setor privado. E o cachorro continua correndo atrás do rabo.

*ITAAN ARRUDA

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