Glória

Já vai longe o tempo: a Rua Rio Grande do Sul era uma das principais de Rio Branco e ali onde hoje é o Sebrae do Centro havia um goiabal razoável. O Sorriso já ajudava os comerciantes da antiga Praça da Bandeira e o Empina Jó fazia gargalhar os vendedores da pedra com o andar sempre aperriado. Era o início dos anos 80.

Eram seis da tarde. Enquanto Dom Moacyr fazia a prece da Ave Maria (e todos se benziam em frente às poucas tevês que havia na rua), uma cena medonha jamais foi esquecida. O portão de cercas velhas se abriu bruscamente.

Do terreiro de terra batida saiu o Neguim: um vendedor de doces de mamão e quibes. O menino era danado. Ninguém tinha dúvida disso. Mas, ele não merecia aquilo. Junto com ele, saia o pai, com o cinto na mão. A fivela veio traiçoeira. Pegou perto do nariz. O sangue desceu apressado. E foi no primeiro golpe que veio o grito de desespero do amigo.

“… e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus…”, dizia Dom Moacyr. E o Neguim apanhando. “Rogai por nós, pecadores…”. A fivela atingiu a cabeça. “Meu Deus, por que ele só bate na cabeça do menino?” Era a pergunta que denunciava a minha primeira covardia. A vontade era de juntar a tropa e bater no pai do Neguim.

Outros se somaram a mim na omissão. Alguns choraram vendo a cena sem nada poder fazer. “Pai que não faz filho chorar, um dia chora por ele”. Era o mote que justificava a violência do Toim Biló, o pai agressor. A criança voltou para a casa, debaixo de mais peia. O Neguim também não tinha o que fazer. Chamou de “gostosa” uma das amantes do pai.

Ele já tinha pra mais de 10 filhos. Só com a D. Glória, mãe do Neguim, eram seis. A mãe fazia doces para vender na entrada da Escola Diogo Feijó. Muitas vezes, era dali que vinha o sustento da família porque Toim Biló não garantia nada.

Nem comida. Nem chita para os vestidos das irmãs. Nem tergal para as bermudas dos irmãos. A privação era total. Os vizinhos que se compadeciam de D. Glória.

Janota, Biló era motorista no serviço público. Carregava autoridades para cima e para baixo. Por sempre andar bem vestido, Biló exercia certo fascínio no Neguim: quando não estava apanhando, claro. O menino se orgulhava do pai “que até andava com o governador”. Apesar de tudo, era o pai herói.

Na importância biônica que dava a si mesmo, Biló ignorava D. Glória e nutria uma raiva incompreensível pelo desgraçado do Neguim. Uma noite, o menino descobriu algo que lhe transformou a vida. Fingindo dormir, ouviu um diálogo fatal.

“Não diz isso, Tonho, vai que o menino ouve”, advertiu D. Glória. “Mas, é verdade, mulher. O Neguim é feio! E ademais, nem era pra ter vindo. Tu é que embucha fácil e pariu esse bicho”. Aquilo entrou como faca no coração da criança.

Teve um tempo que Biló sumiu. Neguim até que achou bom: apanhava menos. D. Glória achou emprego em escola pública como merendeira. Lambeu as seis crias. A lembrança veio por causa dessas redes sociais que, vez por outra, acusam nosso passado de forma inesperada:

D. Glória morreu há cinco anos. Biló continua vivo, dirigindo e vaidoso. Neguim deixou de apanhar. É advogado em Florianópolis. Pelas fotos, estudou na França e Alemanha. D. Glória não viveu em vão. “… assim como era no princípio/para todo o Sempre. Amém”.

*ITaan Arruda é jornalista.

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