Somos cúmplices

Tão repugnante e devastador quanto os crimes que um assassino, um maníaco ou um pedófilo cometem é a permissão, o ‘aval’ que nós, pessoas de bem, damos a estes comportamentos, através da omissão e das relações hipócritas que mantemos na nossa sociedade.

Gente doente, pervertida e psicopata transita entre nós, nas nossas casas, nas casas de nossos amigos, entre nossos filhos, nos bares e restaurantes que frequentamos, disfarçados de figurões da high society, de profissionais cheios de talento ou de gênios incompreendidos…E, no final das contas, o que fazemos??? Absolutamente nada.

Que fique bem claro: não se trata aqui de ‘discriminação’. O problema é que, nitidamente, enxergamos as molés-tias que eles continuam praticando sem o mínimo de constrangimento. Percebemos o aliciamen-to de menores, a corrupção se-xual e moral de gente pobre e necessitada que, ingenua-mente ou por oportunismo mesmo, acha que, por meio deles, vai alcançar fama ou uma “vida melhor”.

Acompanhamos e, de algum modo, até damos publicidade e visibilidade para novas ferramentas e instrumentos que, obviamente, serão utilizados para mais e mais atos vis e inescrupulosos.

Ainda assim, ‘pela frente’, preferimos ser simpáticos, fofinhos e bonzinhos.

Enquanto o mal não se abater sobre a nossa casa, sobre nossos filhos ou sobre nossos netos (Deus nos livre!), escolhemos fingir que não vemos e que não sabemos de nada.

Somos medrosos e covardes demais para nos expor publicamente, para gritar (porque essa é a vontade que dá, diante de tanta nojeira!)…Para entrar em confronto, e para, se necessário for, até melindrar relações com aqueles que queremos bem, mas que, inocentemente, acabam enganados e cooptados pelas dissimulações desses algozes.

“Ah, mas eu não tenho provas”… “Ah, podem ser só boatos”… “Não podemos julgar as pessoas”… “Eu só acredito no que eu vejo”. Ok. Eu também me dou essas desculpas para me manter nessa perigosa zona de conforto… Mas, intimamente, reconheço que estes são apenas pretextos para disfarçar a minha fraqueza e falta de coragem de tomar uma posição. E como eu me envergonho disso!

Enquanto isso, continuamos cúmplices e corresponsáveis por alimentar essa rede de crueldade e impunidade, bem diante do nosso nariz.

Maíra Martinello é jornalista. [email protected]

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