Indicadores da consciência

Faz muito tempo que prevalece um velho costume na imprensa local de veicular as notícias referentes às remessas de verbas para este Estado com certo fervor parecido com fanatismo religioso. Elas procuram causar grande impacto com os valores impressos com grande destaque, tanto que quase conseguimos ouvir uma banda de música: “Governo Federal liberou 700 milhões para infraestru-tura”; “40 milhões foram liberados para Segurança em nosso Estado”; “800 milhões foram destinados para o programa Minha  Casa Minha vida, nesta capital”; Seis bilhões já foram liberados para início das obras da ferrovia Acre/Rondônia”. Enfim, tais notícias nos deixam estonteados, mais que isso, desalojados, esvaziados, primeiramente porque é muito dinheiro, em segundo, porque o noticiado, como sempre, para ali mesmo. Algo não coaduna. Por exemplo, a filha de uma amiga minha foi atacada em plena luz do dia por um marginal nas proximidades do Conjunto Universitário. Enquanto lutava para não ser impelida para o matagal ela viu um carro da polícia vindo pela avenida e daí balançou os braços o quanto pode, como um náufrago ao avistar um helicóptero. Não foi vista, nem poderia, o carro tinha fumê e os vidros levantados por causa do ar condicionado. Escapou porque Deus quis.

Noites atrás, um noticiário local de televisão mostrou o estado lastimável de um conjunto habitacional em construção, do programa “Minha Casa” cuja obra foi abandonada pela empresa responsável. Todos nós sabemos que haverá um longo quiprocó, muita papelada, alguns advogados empenhados de um lado e de outro, sendo que o enorme prejuízo já foi debitado nas contas públicas.

Cientistas de renome mundial elaboraram documento, recentemente, com algumas sugestões para um desenvolvimento com sustentabilidade, entre elas a de se substituir o PIB – Produto Interno Bruto – por um novo indicador, o IDH, Índice de Desenvolvimento Humano. O PIB é um indicador da medida da riqueza dos países e pela sua observação tem-se a certeza que a economia cresceu ou não, mas nada indica a respeito dos efeitos sociais e ambientais dessa variação. Assim, a riqueza proveniente da mineração no vizinho país, o Peru, aparece somada às demais riquezas tais como aquelas provenientes das excursões turísticas a Macchu Picchu. Nada é dito sobre a desintegração das comunidades indígenas que habitam no local, das clareiras que surgem com as explosões em plena selva, do uso indiscriminado do mercúrio, da violência, de todo um ecossistema que está sendo desequilibrado. O PIB, portanto, não está sustentado em indicadores de equilíbrio ambiental e social de cada país.

O maior problema é o desinteresse por parte da sociedade que tem a mesma configuração por toda parte, já que está organizada nos moldes das relações capitalistas. Especialistas da ONU acreditam que é preciso avaliar o grau de percepção ambiental bem como as áreas onde existe descon-formidade de conhecimento da socie-dade junto aos temas ambientais, isso para se nortear um programa amplo de educação ambiental.

A ONU elencou as 21 questões ambientais para este século que variam desde desertificação à poluição dos mares. No Brasil, temos notícia de que o Espírito Santo seguiu essa recomendação investigando indicadores do interesse da sociedade em relação aos temas ambientais na Grande Vitória e alguns municí-pios do interior: 35% sentem interesse por engenharia genética, 17,8% pela perda da biodiversidade; 29% pela exploração excessiva dos recursos hídricos, e assim por diante, até completar os 21 pontos.

Acredito ainda que a renda per capita possa ser um indicador também, sobretudo para efeito de comparação entre as regiões. Na cidade de Florianópolis, por exemplo, onde passei poucos dias, há mais ou menos quinze anos, observei o quanto a Fundação de Meio Ambiente era influente ao ponto de impedir ou inibir de fato construção de imóveis, ou as dimensões dos mesmos em razão do protecionismo ambiental. Sem contar que não se via um pedaçinho de papel pelas ruas. Os banheiros do came-lódromo, no Centro da cidade, a mim pareciam mais higienizados que os do nosso aeroporto, naqueles anos. O grau de eficiência, higiene e funcionalidade das coisas, denotavam o quanto existe naquela cidade de desenvolvimento humano com base nas evidências de respeito a si próprio e ao meio, sensibilidade e boa educação. Do outro lado, uma viagem de ônibus que fiz entre Recife e Fortaleza, cinco anos depois dessa ida à Florianópolis, me apresentou um excessivo grau de desmazelo.

Embora não pareça, a percepção ambiental é um fator essencialmente político. Quanto mais atraso em  cidadania, maior é o descalabro e a exploração da ignorância e boa-fé das pessoas. Vejamos o caso de Rondônia, onde existe um casal de senadores, ou seja, marido e esposa são senadores, os dois, Valdir e Marinha Raupp. Esta, através  de uma emenda individual aprovada pelo Congresso conseguiu 10 bilhões para a construção de uma terceira hidrelétrica no Rio Madeira. Ela falou assim: “as centrais elétricas geram alguns tipos de impactos ambientais, mas, ainda é um tipo de energia mais barata que as outras”. E colocou ponto final, sozinha, no fato. A mesma senadora ainda garantiu no PPA, Plano Plurianual (2012-2015) 700 milhões para construção de eclusas nas usinas de Jirau e Santo Antônio e 300 milhões para um novo ponto do Rio Madeira.

O coordenador do fórum SOS Clima Terra, Roberto Lenox, disse que projetos como esses de matriz energética não deveriam ser propostos individualmente ou por pequenos grupos de políticos: “os governantes e legisladores devem observar, estudar e valorizar o debate com a socie-dade que eles costumam ignorar. Já se sabe que o ideal é construir pequenas usinas, perto dos locais de consumo, para que não se perca dinheiro com transmissão. Uma escolha desse porte significa não apenas impactos ambientais e sociais, como a definição de uma prioridade que pode ser equivocada”.

Por fim, podemos afirmar que os ambientalistas de nosso país, em geral, são muito elegantes no falar e no agir, sua atuação se inscreve em meios restritos, em reuniões fechadas, raramente saem em campo, mais contemporizadores que dispostos à mobilização, avessos às ações de extremismo radical. Com exceção da sensibilidade de Caetano Veloso, os compositores brasileiros fugiram da raia. O nosso profeta ainda continua sendo Raul Seixas com seu Ouro de Tolo e Sociedade Alternativa que lhe valeram tortura e lágrimas durante a última ditadura.

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