O arquiteto-construtor: união do útil ao agradável!

Defendo a tese de que os arquitetos não devem limitar-se simplesmente ao trabalho tradicional de projeto, muito pelo contrário: devem aproveitar sua formação holística, que abrange vários campos das ciên-cias humanas e da engenharia, para entrar também em outras áreas que, apesar de historicamente fazerem parte de sua  atividade, foram deixadas para segundo plano. A construção e administração de obras são algumas dessas áreas.

O objetivo deste artigo é mostrar como o arquiteto pode e deve complementar seu trabalho tradicional de projeto partindo também para o canteiro de obra e cuidando da execução dos espaços que ele mesmo ou outros colegas projetaram ou idealizaram. Não são poucas as implicações deste passo que pode até parecer equivocado para as correntes modernistas e tradicionalistas da arquitetura brasileira, mas tenho estudado esse assunto e estou absolutamente convencido de que os arquitetos não se valorizarão enquanto não “roubarem” o rótulo de “construtor” que atualmente pertence aos engenheiros civis e, pasmem, também para os incor-poradores e corretores de imóveis.

Para grande parcela da população os engenheiros é que produzem os imóveis, o que pode até ser verdadeiro se pensarmos apenas na construção em si. E este é um equívoco, pois ninguém vive ou trabalha em imóveis, mas sim em espaços, onde precisamos de conforto, ergonomia e funcionalidade. Enquanto este fato simples, porém importante, não for levado ao conhecido público, os arquitetos continuarão longe de atingir seus objetivos profissionais e a sociedade como um todo é que estará perdendo.

A arquitetura é uma das profissões mais antigas do mundo. Segundo o famoso historiador Kostoff, em sua obra de 1977, a presença de arquitetos em documentos é registrada desde o 3º milênio antes de Cristo. A atividade do arquiteto surge no momento em que a sociedade necessita de edificações mais complexas, e se isso era verdadeiro nas sociedades primitivas, quem diria no mundo moderno.

Alguns teóricos chamam o século XIX de “século dos engenheiros” porque, de certa forma, os arquitetos daquele período ficaram fora do desenvolvimento tecnológico concentrando-se na estética e na arte. Este fato evoluiu e criou uma separação histórica, em que o arquiteto faz o projeto enquanto que o engenheiro constrói. Esta situação vem criando uma grande distorção no mercado de trabalho do arquiteto, resultando na desvalorização do trabalho do arquiteto e na excessiva valorização de outros profissionais.

Produzir espaços é uma atividade nobre. É nesses espaços que as pessoas vão viver, trabalhar e descansar. Não resta dúvida de que um espaço de qualidade precisa de cuidados tanto no seu planejamento quanto na execução só que, tradi-cionalmente, o arquiteto fica apenas com o planejamento, isto quando é chamado para isto. Na maior parte dos casos, os espaços são planejados com base em artigos de revista, na experiência pessoal do proprietário ou até com projetos feitos por outros profissionais que, por mais que tenham conhecimento e expe-riência, não foram treinados para serem exatamente produtores de espaço, mas este é um tema para ser discutido em outra ocasião. O que quero abordar agora é esta divisão clássica que existe entre quem planeja uma construção e aquele que vai executá-la, ou seja, transformar realidade aquelas idéias que foram representadas nos desenhos.

Esta transição das idéias para o canteiro de obras gera uma infinidade de desenhos e outros documentos que, por mais bem feitos que sejam, nunca exprimem exatamente o que o planejador daquele espaço visualizou. Fora isto, nem sempre (ou quase nunca) o executor vai fazer exatamente o que estiver nos desenhos. Fora isso, um projeto sempre vai sendo aperfeiçoado, mesmo depois que o projeto executivo está pronto o arquiteto pode ter alguma ideia melhor ou então as condições em que o projeto foi feito se alteraram.

Some-se tudo isso e o que temos é uma obra que, apesar de ter gasto muito tempo e dinheiro com seu planejamento, pode ficar insatisfatória. Ou então pode ser que o próprio arquiteto, diante da obra real, sinta que poderia fazer alguma coisa diferente do que tinha planejado, simplesmente porque uma coisa é imaginar um espaço, e outra completamente diferente é estar naquele espaço, mesmo que inacabado.

O que estou querendo dizer com isso tudo? É que se o arquiteto for ele mesmo o construtor da obra poderá oferecer um serviço melhor e mais barato para seu cliente. Além disso, o arquiteto-construtor vai poder ir ajustando suas ideias à medida que a obra vai evoluindo, dando um toque aqui outro ali, modificando os acabamentos de acordo com o que estiver acontecendo no mercado naquele momento, aproveitando as ofertas das grandes lojas, enfim, a obra vai tornar-se uma coisa viva e dinâmica, e não aquela coisa congelada em algumas folhas de papel.

Obviamente, não é possível fazer qualquer tipo de obra sem um projeto executivo. Em obras públicas ou em obras grandes o projeto executivo é necessário para fazer as licitações e tomadas de preço, não é desse mercado que estou falando. Quero me referir às obras pequenas e médias, que são a maio-ria em nossa cidade.

Parece que os arquitetos estão num beco sem saída, mas não é bem assim. O arquiteto pode e deve deixar certos preconceitos de lado e partir para uma ampliação dos horizontes.

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