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O silêncio cúmplice da grande mídia

 A visita do Papa Francisco ao Brasil na última semana, para participar da Jornada Mundial da Juventude, ocupou os mais generosos espaços da mídia do país. A imprensa mobilizou seus melhores profissionais na cobertura do evento. Cada palavra dita pelo pontífice foi cuidadosamente acompanhada. Tudo milimetricamente construído para inseri-lo no ambiente das manifestações de protestos que ocorreram no mês passado.

 Esse esforço fenomenal permitiu que os veículos de comunicação escondessem deliberadamente a notícia do maior escândalo de corrupção envolvendo os sucessivos governos do PSDB no estado de São Paulo, denunciado na revista IstoÉ.  Os jornais Folha de São Paulo, Globo e as revistas Veja e Época, que têm se notabilizado por se auto-intitularem vigilantes da moralidade pública, fizeram um silêncio cúmplice das traquinagens dos tucanos paulistas.

 Não há dúvidas quanto à importância da visita do Papa. Agora é inegável, também, que a magnitude do esquema de desvio de recursos públicos montado na gestão do PSDB torna o assunto altamente relevante para o jornalismo político. Essa denúncia seria mais do que suficiente para que a imprensa tivesse dedicado um bom espaço, mostrando como a corrupção tomou conta do estado de São Paulo, nos vinte anos de poder do partido cujos expoentes são Aécio Neves, José Serra, Geraldo Alckmin e FHC.

 A população brasileira e, em particular, a de São Paulo não poderiam ser privadas de saber como as empresas da área de transporte sobre trilhos venciam licitações públicas e superfaturavam as obra em 30%. O contribuinte da segunda maior economia do país precisava tomar conhecimento, por exemplo, que R$ 3,00 de cada R$ 10,00 dos cofres públicos eram drenados para abastecer um propinoduto que beneficiava gente ilustre do tucanato. Afinal, foram quase R$ 500 milhões desviados, levando em consideração a análise de apenas 16 contratos da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).

 O esquema dos tucanos, caracterizado pelos investigadores como uma fabulosa história de achaque aos cofres públicos, tem todos os ingre-dientes para o ser o maior escândalo de corrupção do períoddo republicano. Por isso, o silêncio sepulcral da imprensa neste episódio é lamentável. Deixa claro que a indignação da mídia brasileira com a corrupção segue o roteiro dos seus próprios interesses e dos interesses dos grupos políticos e econômicos que representa.

 É impressionante como a imprensa nativa tem dificuldade de denunciar escândalos protagonizados pelo PSDB. A cumplicidade entre este e os veículos de comunicação é tão grande que fica visível essa opção por fazer política partidária e não jornalismo político. Não há outra explicação, a menos que desvio de dinheiro público nos governos do PSDB não seja corrupção.

 Antes que alguém questione, não se reivindica aqui a mesma cumplicidade para com outras organizações partidá-rias. Vale ressaltar que o combate a corrupção deve ser implacável, não importando o volume de recursos desviados e nem os personagens envolvidos. A luta pela correta aplicação dos recursos públicos não pode servir de bandeira para uma imprensa que a cada dia demonstra que tem lado, ou melhor, que tem partido.

 Não dá mais para aceitar esse combate seletivo.  O que a maioria dos veículos de comunicação vem fazendo há muito tempo é uma tentativa de manipular a cidadania brasileira. Esse falso moralismo tem servido apenas para tonificar a propaganda político-partidária de uma elite preconceituosa e, em sua maioria, corrupta, que sonha em voltar ao poder.

 Os compromissos políticos, ideológicos e empresariais desses veículos de comunicação não podem suprimir o direito à informação. A sociedade civil tem que começar a cobrar uma maior responsabilidade social na difusão das notícias. Caso contrário, se fortalecerá uma imprensa pronta a condenar os erros cometidos pelos partidos progressistas e ser leniente com as tramoias praticadas por integrantes do PSDB.
 
* Jornalista, cientista político e acadêmico de direito ([email protected])