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Francisco Assis
Francisco Assis dos Santos é filósofo e humanista. Email:[email protected]

“Samba do crioulo doido”

Um colunista de política local disse, outro dia, que pregar ideologias no momento atual da vida pública brasileira, é como “jogar pérolas aos porcos”. Faz sentido, principalmente porque o perfil do político em vigência enquandra-se na lei de murici: É cada um por si e o Diabo por todos.

O sociólogo Karl Mannheim que, segundo Rubens Alves, poucos no mundo de hoje lêem seus escritos, usava o termo “ideologia” para aludir a algum conjunto de crenças onde aparece uma diferença entre motivos anunciados e motivos subja-centes. Uma ideologia total, dizia Mannheim, e aquela que tem sua origem nas condições sociais.

Seguindo a mesma linha de raciocínio, Mahatma Gandhi (1869-l948) líder, pacifista e pensador indiano dizia que os sete pecados capitais responsáveis  pelas injustiças sociais são: “riqueza sem trabalho; prazeres sem escrúpulos; conhecimento sem sabedoria; comércio sem moral; religião sem sacrifício; ciência sem humanismo e; política sem idealismo”.

Em sentido positivo, ideologia significa qualquer sistema de ideias e normas que orienta a maneira de pensar e de agir das pessoas. Aponta para ideias e maneira de refletir que caracterizam um grupo particular, bem como os ideais que guiam a conduta desse grupo. Em política, ideologia visa o bem comum.

A política partidária brasileira é o protótipo da política sem idealismo em cujas entranhas ou bastidores, os padrões éticos representados na virtude da sabedoria, da coragem, da moderação e da justiça, não estão presentes. À primeira vista, pode parecer leviana essa afirmação, contudo basta uma simples olhadela nos noticiários da mídia geral ou fazer um exercício de memória a partir dos últimos acontecimentos, da última década, envolvendo ações políticas por grande parte de quem vive no “meio”, para constatar a veracidade dessa premissa. A política em vigência está na contramão da ética, sim. Parece que a classe política (ou seria categoria?) reza pelo mesmo manual de tirania que ensina a fazer tudo o que for necessário, independentemente de valores morais, para alcançar e conservar o poder, concebido como um fim em si mesmo. Alias essa premissa de alcançar e conservar o poder a qualquer preço é o que mais me entristece, na condição de cidadão comum, no atual momento político brasileiro. 

Política sem idealismo, em sentido comum, é ainda aquela sem engajamento e dedicação a uma causa nobre. Assim, nos dias atuais, neste ou em qualquer outro governo do passado,  vislumbrar uma política em-basada em ideais é uma verdadeira utopia, para não dizer de elevado conceito abstrato, isto é:  impossível à luz da experiência humana, porquanto política e ética,  que deveriam andar lado a lado, estão  trilhando caminhos ambíguos, não tem nada a ver uma com a outra. Utopismo, na sua significação mais usual, refere-se à indiferênça quanto à possibilidade de suas propostas que caracteriza os idealizadores de utopias ou sociedades ideais.

É notória a ausência, não só de idealismo, mas também de ideologia nos partidos políticos que estão à frente do poder instituido. É uma verdadeira miscelânea “ideológica” revelando um caráter no mínimo vergonhoso, porquanto o que tem a ver em termos ideológicos, por exemplo, o DEM com o PV. Os democratas, diz um trecho duma nota atribuída aos verdes “representam ideias e práticas políticas absolutamente contrárias aos estatutos e ao sentimento do Partido Verde”.

Dá para entender, leitor, os homens do poder partidário? Cadê a ideologia partidária? Por exemplo: alguém sabe onde se escondeu a esquerda brasileira? Ainda está viva?  Se bem que a ideologia, hoje, dos partidos políticos, é a ideologia do status quo econômico financeiro, cuja principal bandeira é como diziam os antigos, o poder de barganha.

Tal incoerência e amálgama partidário nos faz lembrar uma máxima folclórica, que em nível de política foi ressuscitada, em dias pretéritos, pelo falecido senador Jéferson Peres, político dos mais honrados, que certa vez, ao participar duma CPI, dentre tantas, vividas por ele no Congresso Nacional, diante das tremendas “enroladas” dos envolvidos, saiu-se com essa: Isso aqui está parecendo “samba do crioulo doido.”

* Pesquisador  Bibliográfico em Humanidades.
E-mail: [email protected]