O final da Revolução não foi o fim!

O sol de 24 de janeiro apareceu através de espessa cerração, mostrando-nos inúmeras bandeiras brancas circundando as trincheiras inimigas. Momentos após, 7 horas da manhã, o emissário vinha propor a rendição da praça”.

Foi assim que o Comandante Plácido de Castro, com sua característica prosa militar, descreveu em seus apontamentos o momento da rendição boliviana depois do maior dos combates da Revolução Acreana, há 111 anos, em Porto Acre.

Durante muito tempo esse combate foi tratado como o fim da Revolução Acreana, por ter sido o último combate entre as forças revolucionárias e o exército boliviano travado em terras acreanas. Entretanto, ao pensarmos assim, acabamos jogando fora, ou diminuindo, a importância de diversos acontecimentos posteriores e que foram fundamentais para a transformação efetiva e completa do Acre em um espaço brasileiro.

Penso que não é possível desconsiderar que pouco tempo depois da vitória de Porto Acre, chegou a notícia do avanço das tropas bolivianas sob o comando do próprio presidente da República da Bolívia: General Pando. A partir da região do Rio Tahuamanu, Pando ameaçava invadir o Acre com o grosso do exército boliviano. Mas dois movimentos o detiveram.

Por um lado, o cel. Plácido de Castro, ao receber a notícia do avanço de Pando, se deslocou com suas tropas para essa região disposto a encarar um combate ainda maior do que havia sido o de Porto Acre. Por outro, o Barão do Rio Branco – que já havia sido designado pelo presidente brasileiro, Rodrigues Alves, para dar solução à Guerra do Acre, que causava grande desconforto político ao governo – mandou tropas do exército brasileiro para o Acre, mas também para a fronteira da Bolívia com o Mato Grosso. Com isso o Barão mandava um recado muito claro a Pando: se você invadir o Acre, nós vamos invadir seu país pelo sul.

Graças a esses dois movimentos militares, o acreano e o brasileiro, os diplomatas bolivianos aceitaram assinar com o Barão do Rio Branco, um Modus Vivendi estabelecendo condições para um imediato cessar fogo. O que aconteceu, vale lembrar, no momento em que Plácido e Pando já estavam prestes a se enfrentar. O Modus Vivendi não só possibilitou então o fim das hostilidades, mas também o inicio das negociações entre Brasil e Bolívia que resultariam na assinatura do Tratado de Petrópolis em 17 de novembro do mesmo ano.

Acontece que mesmo após o fim das negociações entre o Brasil e a Bolívia e a anexação do Acre ao nosso país, ainda restava pendente a questão territorial com o Peru, a quem pertencia todo o Vale do Juruá e seus afluentes, bem como parte do Vale do Purus. Assim, nem bem terminou a longa Guerra do Acre, que se estendeu de 1899 a 1903, começaram diversos confrontos entre acreanos e peruanos.

Isso se deu, em grande medida, porque, inteligentemente, os peruanos começaram a avançar sobre terras que eram habitadas por brasileiros. Se o princípio orientador do Tratado de Petrópolis havia sido o uti possidetis: a terra é de quem a habita, então urgia ocupar o mais rapidamente possível o máximo de território antes de negociar um tratado de Limites.

Assim, entre 1904 e 1905, ocorreram muitos combates, tanto no Rio Purus, como no Rio Juruá. Dentre eles, o famoso combate entre os homens do, então, Geral Thaumaturgo de Azevedo, o fundador de Cruzeiro do Sul, que na época era Prefeito Departamental do Alto Juruá, e tropas do exército peruano pelo domínio da foz do Rio Amônia, onde hoje se situa a cidade de Marechal Thaumaturgo. Com isso os brasileiros detiveram os peruanos que pretendiam ficar com todo o trecho do Juruá compreendido entre a foz do Rio Breu e a foz do Rio Amônia. Essa si-tuação de conflito armado só seria completamente estabilizada com a assinatura de outro tratado de limites, em 1909: o tratado do Rio de Janeiro, entre Brasil e Peru.

Mas, nada disso, diminui a importância da vitória final do Combate de Porto Acre, obtida em 24 de janeiro de 1903. Pelo contrário, mostra claramente que essa vitória foi um passo decisivo no sucesso obtido em todos os outros acontecimentos aqui relacionados. Assim como serviria de inspiração e exemplo, anos mais tarde, para movimentos autonomistas e outras lutas que o povo acreano continuaria enfrentando ao longo de toda sua história.

Não é a toa, então, que a população de Porto Acre simbolicamente escolheu 24 de janeiro como sendo a data de fundação dessa cidade, em lugar de considerar o dia 2 de janeiro de 1899, que foi quando os militares bolivianos criaram Puerto Alonso, nesse mesmo lugar, marcando o início da ocupação boliviana do Acre. O que provocaria, poucos meses depois, o começo da Revolução Acreana.

Ou seja, por decisão de seus moradores, Porto Acre foi fundada por aqueles que conquistaram para todos nós o direito de sermos brasileiros. O que explica claramente o sentimento de amor e pertencimento a essa terra que todos os acreanos trazem dentro de si até hoje.

Ao fim e ao cabo, portanto, nem é mesmo tão importante assim definir se a vitória de Porto Acre foi mesmo, ou não, o fim da Revolução. O certo é que, de um modo ou de outro, ela marcou o começo de um lugar do Brasil chamado Acre.

* Marcos Vinicius Neves  é historiador

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