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Invasão no rolezinho

“Nós vamos invadir sua praia”, ameaçava o “Ultraje a rigor” com esse rock que era pesado nos anos 80 e hoje não passa de musiquinha de jardim de infância, pois a rapaziada com mais de 13, 14 anos curte do funck ao sertanejo bruto, passando pelo heavy metal – que ninguém é de ferro. Os jovens trocaram a praia pelos shoppings e não invadem, dão um rolezinho.

E logo alguns setores da opinião pública, por assim dizer, tentam invadir os rolezinhos para politizá-los e até associá-los aos protestos de setembro de 2013, forjando a tese de uma conflagração popular que se desdobrará até derrubar o governo Dilma e entronizar a oposição no poder.

Mas à medida que o noticiário ganha corpo e revela as lideranças dos rolezinhos, a teoria da conspiração da oposição desaba. Os meninos e meninas que invadem os shoppings deixam claro que o que querem mesmo é “zoar” e “pegar geral” – ou “brincar e se divertir” e “beijar na boca e namorar sem compromisso”, em livre tradução do dialeto do funck para o português careta.

Inconformismo, mudança de costumes, novas formas de expressão, ascensão econômica – todas essas e muitas outras pulsões sociais devem bater nos corações e desejos dos jovens brasileiros que estão agora se agitando nas periferias dos grandes centros urbanos. Isso é deve ser olhado e compreendido pela sociedade, especialmente por governos e também por oposições – pelo menos aquelas que se pretendem sérias e propositivas. Entender os jovens, nas diversas dimensões sociais e culturais desse único, imenso e contraditório Brasil, é indispensável para a construção de um futuro com justiça social.

Mas entre o “invadir sua praia” e o “rolezinho” da hora, muita coisa mudou neste país. Nos anos 80 até protesto era privilégio de classe média – sem nenhum demérito aos jovens que combateram a ditadura militar. Já agora, a juventude convocada pela internet e que emerge da periferia vestindo roupas de grife, é filha de trabalhadores incluídos nos mercados de trabalho e de consumo a partir do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Esse o detalhe de origem dos rolezinhos que estranhamente ninguém lembra. Nem a grande imprensa e muito menos a oposição.

*Gilberto Braga de Mello é jornalista e publicitário.
E-mail: [email protected]