Ousadia virtual

Joana, uma jovem de vinte e poucos anos, estudada e articulada, costumava se autodenominar independente. Ela tinha mania de ingerir informações pela internet. Andava para todos os lados com seus inseparáveis aparelhos eletrônicos que a conectavam com o restante do mundo.

Quando estava em frente a um computador, Joana se sentia no direito de agredir e criticar as pessoas pelas redes sociais.

Antes de conhecer e interagir no mundo virtual, ela não era tão insistente e observadora com os defeitos dos outros. Mas agora, graças à tecnologia, ficara mais fácil vomitar os pensamentos e opiniões.

Joana virara uma revolucionária nas redes sociais. Nada lhe passava em branco, inclusive os problemas pessoais dos outros. Pensando dessa forma, a jovem não poupava palavras para rebater os ‘amigos’ virtuais.

De vez em quando, Joana gostava de lançar indiretas em quem não simpatizava. Nada muito cruel, apenas uma ‘cutucada’.

Quando sabia de um escândalo sobre alguém, tratava o assunto como furo de reportagem. Na internet, ela compartilhava o ‘bafão’ com todos. Afinal, não lhe interessava a privacidade da pessoa, mas sim o número de curtidas, comentários e visualizações. Legal era ser popular nas redes sociais.

Para continuar com essa reputação, a jovem acabava abrindo mão de se divertir com a família e os amigos. Nada poderia tirar o foco de atualizar a sua página na internet.

Um dia, a mulher acabou sendo vítima dos perigos urbanos. Roubada, ela apenas se conformou por não terem lhe tirado a vida. Algumas horas depois, sem o celular e o notebook, Joana começou apresentar sinais de ansiedade. Mesmo no trabalho, a sensação de estar sem o celular lhe deixava aflita.

No caminho para casa a jovem se deparou com uma das pessoas a quem teria ofendido virtualmente, mas instantaneamente virou o rosto. Mais à frente, um político estava cedendo entrevista coletiva na praça. No entanto, Joana não sentia a mesma coragem para rebatê-lo pessoalmente.

Às vezes somos um tanto Joana. Quando nos sentimos injustiçados, viramos feras nas redes sociais. Porém, quando a situação requer ousadia para enfrentar os conflitos ao vivo, as coisas ficam diferentes.

É lamentável notar que as pes-soas estão cada vez mais arrogantes e hostis no meio virtual. Já não existe preocupação com o que falamos naquele espaço. Julgamos e nos sentimos no direito de agir assim. Algo está muito errado.

* Brenna Amâncio é jornalista.
E-mail: [email protected]

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