Divisões e toadas

Não faz muito tempo, o Acre era um estado dividido na esfera política. Havia a Frente Popular do Acre. Havia o Movimento Democrático Acreano. Não existia outra possibilidade: quem estava à deriva ou “buiando” nos rios da região, cedo ou tarde tinha que se ancorar em um barranco onde estava uma das duas turmas.

De memória, chegam os nomes de alguns da turma Azul (cor representativa do MDA): Narciso Mendes, Flaviano Melo, Isnard Leite, João Correia, Alércio Dias, Wagner Sales, Orleir Cameli, César Messias, Armando Dantas, Marcio Bittar etc. etc. De fato, o MDA foi uma novidade que há muito não se via no cenário político local. E foi muito eficiente.

Da turma de Vermelho, são lembrados Jorge Viana, Binho Marques, Marina Silva, Edvaldo Magalhães, Angelim, Tião Viana, Tião Bocalom, Nílson Mourão,  Antônio Al-ves, Júlia Feitosa, Raimundão, Edson Cadaxo, Geraldo Mesquita, Perpétua Almeida e, abençoando a todos de maneira informal e jamais assumida, Dom Moacyr Grechi.

Dividida desta forma, a vida tinha contornos mais claros. Era mais fácil definir. Era mais fácil decidir. “… O velho comunista se aliançou/Ao rubro do rubor do meu amor…” ou “Dança nesse passo/Ritimado do tambor/Faz o caquiado/Caquiado caprichado” eram as toadas que embalavam as turminhas de um lado e outro do rio.

O problema é que ao longo desses últimos 13 anos, percebeu-se como nunca que a metáfora óbvia da política com as nuvens é real. Ano após ano, valorizou-se a postura de garantir a adesão de rivais como capacidade “de fazer política”.

Mandando às favas a coerência, as nuvens foram tomando novas formas. Aos poucos, alguns atravessaram o rio e mudaram de margem. Escolheram o barranco oposto. Começaram a cantar outra toada.

Aos poucos, o eleitor foi percebendo as mudanças. Afinal de contas, ninguém atravessa um rio e chega o mesmo na outra margem. Algo que não passa despercebido. E qual o complicador disso?

O fator mais óbvio é o seguinte: sem polarização, a decisão do eleitor se fundamenta em quê? Sem a divisão maniqueísta entre “o bem e o mal”, quais são os crité-rios que levam a optar por uma ou outra margem do rio?

De uma coisa é certa: a correnteza exige uma posição. Nem que o nadador desemboque em uma foz e siga para outro rio, mas uma hora ou outra ele tem que optar. Há um aspecto positivo no atual cenário: a busca por critérios mais objetivos, mais propositivos, força o olhar para o conteúdo programático dos candidatos.

Os marqueteiros classificam isso como balela. Argumentam que eleição foi, é e sempre será definida por critérios subjetivos e emotivos. Eles têm uma dose de razão. Mas, o problema é que não há, atualmente, emoção possível quando as toadas perderam o encanto.

O problema não é ir votar em sicrano, no fulano ou no beltrano. O problema é votar neles sem perspectivas. Aliás, o maior problema nas eleições de 2014 é que o pragmatismo político desconstruiu alternativas. Mais do que em qualquer outro momento, o cidadão vai votar sem alegria. Vai escolher uma margem pela pura necessidade de não se afogar.

Itaan Arruda é jornalista.
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