Voto nulo

Se a memória não falha, em 1998 o segundo turno para as eleições de São Paulo ficaram polarizadas entre o tucano Mário Covas e o sempre presente nas urnas paulistas Paulo Maluf. Aluízio Mercadante não conseguiu se sair bem nas urnas naquele ano.

Na ocasião, a orientação do Partido dos Trabalhadores era pela anulação do voto. Como gado novo, obedeci. No momento seguinte ao piar da urna eletrônica, arrependi-me. Não ria, leitor. Isso não é qualquer confissão. Há boa dose de verdade no que compartilho.

E o arrependimento veio em dose maior à medida que o sobe e desce da contagem começou. Um professor, gaia-to, abarcou no ouvido esquerdo. “Se o Maluf ganhar, eu vou cobrar de ti por quatro anos, o preço da tua covardia”. Eu suava. O meu preconceito alimentava o medo de uma possível vitória malufista e tudo o que ela representava.

A noite veio e com ela a vitória do tucano. Mal sabia eu que naquela época já rolava há muito os esquemas de licitação do metrô etc. etc. etc. Hoje, percebo que, de um jeito ou de outro, a cobrança do professor seria equivocada, independente de qual fosse o resultado naquela noite de outubro.

O episódio volta à lembrança devido ao cenário que se desenha para 2014. Sem precisar de orientações de partido, eu antecipo que nunca antes na história do título de eleitor 2556 7237 … … zona 009 seção .. tantos votos serão anulados.

Se ainda tiver algum paciente leitor que tenha superado quinto parágrafo, peço que oriente aos possíveis candidatos que não me venham pedir votos. Não percam tempo. O latim pode ser canalizado para outro jovem.

No varejo, já estou respondendo aos argumentos óbvios de que a anulação de voto “é um desrespeito à luta de tantos que morreram pela democracia”; ou de que o voto nulo “é uma maneira errada de não se comprometer”; até mesmo ao argumento da covardia já tenho respondido.

Há também os raciocínios mais canalhas e cínicos que apontam que o meu voto nulo é uma forma de “cuspir no prato que comi”, uma vez que já pertencia ao PT e à administração petista. Esse argumento é cínico porque geralmente proclamado por quem tem conveniências a defender.

A política não perdeu o encanto. Por um motivo simples: ela nunca foi encantada. Um dos problemas estruturantes na nossa democracia participativa é que ela não teve a capacidade de se reinventar. Há uma dificuldade enorme em ouvir.

Os governos, todos, sofrem de certa esquizofrenia: tem mania de não ouvir e de teimar em não reconhecer que o tempo das comunidades tem muita distinção comparado ao tempo político. Os espaços de participação encolheram, apesar da falsa impressão trazida pela internet e redes sociais.

Boaventura de Souza Santos, Eli da Veiga, Smith, Galeano, Fernando Pessoa, Clarice, o livro de Eclesiastes me preenchem tempo ultimamente. Além de tornarem os momentos silenciosos mais prazerosos, mostram varadouros e portos que nenhum governo será capaz de apontar. Nenhum.

* Itaan Arruda é jornalista.
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