Não me “astrevo”

Diariamente, na ida e vinda ao trabalho, atravesso a Avenida Brasil numa faixa para pedestres pintada pelo Detran em frente a um novo prédio onde deverá funcionar a Caixa Econômica, local próximo ao cruzamento com a Rua Getúlio Vargas. A travessia ali parece segura, até porque quase sempre tem um ou dois (ou duas) guardas de trânsito orientando os motoristas para que respeitem os pedestres.

Fico contente com essa iniciativa de humanização do trânsito em minha cidade, que ganha assim ares de civilizada. Mas não nego que continuo desconfiando que muitos motoristas mal-educados vão se lixar para a medida e continuar com o pé no acelerador, embora percebam nosso olhar aflito junto à faixa. Cauteloso, fico de olho nos (ou nas) policiais com seu apito salvador. Primeiro os (as) cumprimento com um bom dia ou boa tarde, demonstrando simpatia por seu trabalho.

Outro dia, até puxei conversa com uma policial. Perguntei se os motoristas estão acatando a recomendação de parar na faixa para o pedestre passar? Surpreendentemente, ela respondeu que a maioria não, a não ser que o sinal próximo, no cruzamento da Avenida Brasil com a Getúlio Vargas, esteja vermelho, o que acaba impondo uma parada devido ao acúmulo de veículos naquele ponto.

– Pôxa! Então eles estão parando quando o sinal lá na frente está vermelho, não porque precisam respeitar o pedestre!

Aí a guardinha reforçou: “Se o sinal lá estiver verde, eu não me “astrevo” fazer com que eles parem aqui na faixa”.

Meu Deus! Se nem a autoridade no trânsito se atreve, o que nos resta fazer, na condição de pedestres, para enfrentar esses tresloucados do volante? Primeiro, pensei, devemos exercitar nossa indignação. Esses FDEs (filhos duma é…) precisam receber aulas de cidadania, se querem continuar rodando pela cidade com suas máquinas assassinas.

Lembro que o governador fez um comentário duro na televisão afirmando que não vai tolerar desrespeito às “faixas do pedestre” pintadas em pontos estratégicos da cidade.  Se não me engano, até ameaçou os prováveis infratores com prisão, iria cobrar essa providência dos responsáveis pelo trânsito na Capital.

Mas, depois dessa afirmação já aconteceram duas ou três mortes de quem confiou na lei das “faixas”. E ninguém foi preso.

Cá comigo, penso que no trânsito tem muita gente mal-educada ao volante que não dá a mínima para quem tenta estabelecer alguma norma civilizada. É fácil  observar que quanto mais bonito e caro for o veículo, mais perigo existe da norma sugerida ser desrespeitada. Isso tem raízes ideológicas que podem ser comprovadas facilmente. Basta ver o registro policial dos casos acontecidos, nos detalhes.

Ou seja: uma campanha dessas, tão civilizada e necessária numa cidade que se pretende humana, organizada, bonita e sustentável, pra valer de verdade exige tempo, boa publicidade e atenta participação da sociedade de um modo geral. Se os guardas do Detran esqueceram da implementação das faixas de pedestre, convém que os cidadãos ameaçados cobrem a promessa do governador e mais responsabilidade dos encarregados pelo trânsito.

Enquanto isso, não podemos esquecer do alerta da policial sobre o abre-fecha do sinal mais a frente, e não se “atreva” a seguir a lei fazendo travessias perigosas.

* Elson Martins  é jornalista.

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