O salto

É estranho como tudo se trata de escolhas. Bem ou mal. Preto ou branco. Certo ou errado. Na maioria das vezes, nos surgem alternativas que mudam toda a nossa vida. Mas como saber qual delas é a correta? Foi neste dilema que caiu o protagonista desta estória, Joãozinho do Seis, um rapazote de 12 anos, recém-saído da condição de ‘moleque’, morador a sua vida inteira no bairro Seis de Agosto.

Todo ano era só chegar o período de alagação que começava um verdadeiro drama na sua casa. Os pais passavam o tempo todo medindo o Rio Acre com os olhos, arrumando as coisas para quando a água começasse a inundar o lugar. Tristes, mas conformados em saber que aquela era uma questão fora do seu alcance. Já para Joãzinho, aquelas eram épocas que lhe traziam a tristeza de uma impotência um tanto diferente.

Durante toda a infância, ele vira a molecada do bairro ir ‘feliz’ pular da ponte metálica nas mais arriscadas poses para o majestoso rio. Joãozinho sempre teve vontade de fazer o mesmo, de experimentar a tamanha sensação que lhe faltava em sua curta vida. Mas algo sempre o retraia: o medo. Um pavor tão grandioso que até então tinha sido capaz de cortar um de seus maiores desejos. Só que neste ano, ele estava mais do que decidido a mudar isso.

Aproveitou mais uma das incontáveis provocações dos seus vizinhos para tomar coragem e segui-los até a ponte. Na passarela, a adrenalina da sua atitude impulsiva mascarou seus receios. Passando para as hastes metálicas da plataforma, a bravura foi cedendo vez para a covardia. Na última das hastes, vislumbrando o abismo entre a ponte e as águas da cor ‘marrom-abarrentada’ a se perder de vista, o pânico enfim tomou conta do garoto.

Sentindo ali a brisa em seu rosto e os tremores involuntários de seu corpo, veio a ele todo o conflito de ideias que muitas vezes antes a situação já lhe trouxera. Para aquele caso não havia meio-termo. Ou ele recuava e voltava pra casa com a incerteza de não saber como seria se tivesse saltado, ou então jogava seu corpo pra frente e acabava de vez com aquele tormento.

Após martelar alguns instantes em sua cabeça as avacalhações de ‘cagão’ de seus vizinhos e os alertas de ‘se manda daí minino’ da sua cons-ciência, Joãozinho tomou sua decisão. Em um ímpeto destemido, calou todos a sua volta e saltou como nunca o havia imaginado fazer. Por um momento, só lhe veio à glória do ato. Depois, a pancada n’água e a ação irrefreável da correnteza lhe tiraram todas as forças… até ele sumir pra sempre no Rio Acre.

Para a cidade, a morte do garoto era mais um acidente trágico. Mas o que todos se esquecem – e que você, leitor, pode se lembrar com o início do texto – é que a vida é feita de escolhas. Joãozinho escolheu a sua e sofreu as consequências. Portanto, lembre-se: por trás de cada fato, há sempre uma série de escolhas feitas. Boas ou más. Pretas ou brancas. Certas ou erradas!

* Tiago Martinello é jornalista.
E-mail: [email protected]

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