Breque

“Etelvina, minha filha”. O vocativo ecoou centenas de vezes na Rádio Nacional em 1959. O chamado abria a música “Acertei no milhar”, de Wilson Batista e Geraldo Pereira, na voz de Jorge Veiga. Um sucesso como poucos.

A ideia por trás dos versos é simples e faz parte do coletivo desejo de desfrutar uma vida de prazeres e luxo sem o esforço prévio. Como fica evidente nas rimas iniciais.

Acertei no milhar!

Ganhei quinhentos contos!

Não vou mais trabalhar!

Pela letra, o acerto no milhar do jogo do bicho mudou radicalmente a vida do sambista.

Etelvina,

Vai ter outra lua-de-mel.

Você vai ser madame,

Vai morar num grande hotel!

Afinal, os ajustes dos amores referenciados pela pobreza tinham que ser feitos em grande estilo. E, como não podia deixar de ser… o sambista expõe o escondido desejo de todos em cultuar os valores de uma nobreza bem ao ritmo tupiniquim.

Eu vou comprar um nome

Não sei onde

De Marquês Jongorge Veiga,

De Visconde,

Um professor de francês, “mon amour”!

Eu vou trocar seu nome

Pra Madame Pompadour!

O problema é que, na verdade, tudo não passou de um sonho: a viagem a Paris, a compra do avião azul para percorrer a América do Sul, o colégio interno dos filhos… tudo era um sonho.

No fim, Etelvina o acorda para tanger as galinhas do vizinho. “E isso é pra já!”.

A natureza de Sancho presente na figura feminina de Etelvina força o retorno de todos os ouvintes à realidade. A incômoda realidade: uma parada necessária para sentir chão debaixo dos pés e saber que é preciso andar. Sempre. Mas (é preciso reconhecer), o encanto do chamamento permanece, como um feitiço: “Etelvina, minha filha!”

* Uma homenagem aos amigos Leônidas Badaró, Bruno Damasceno e ao grande Da Costa (in memoriam).

Itaan Arruda é jornalista.
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