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Francisco Assis
Francisco Assis dos Santos é filósofo e humanista. Email:[email protected]

Acre: vítima das desigualdades sociais

Recente pesquisa atribuída ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) aponta que a América Latina é considerada a região mais desigual do mundo, pois abriga dez dos 15 países com maiores diferenças entre ricos e pobres do mundo. Segundo a pesquisa, o Brasil esta entre os países mais desiguais.

Embora, na América Latina tenha havido crescimento econômico nos últimos anos, contudo continua a existir uma persistente desigualdade que “precisa ser atacada e reduzida, caso contrário haverá erosão da coesão social e a destruição das instituições democráticas” disse na época Heraldo Muñoz,  diretor regional do programa da ONU para América Latina e Caribe.

No Brasil, em pesquisa do IPEA, três quartos da riqueza existentes estão concentrados nas mãos de apenas 10% da população. Isto é, riquezas imensuráveis continuam nas mãos de poucos enquanto a miséria é privilégio de muitos. Ademais, no Brasil, campeão de desigualdades, temas sobre a fome e a miséria, que assolam os quatro cantos da nossa  nação, só não ocupam diariamente os frontispício dos jornais e as principais manchetes dos telejornais porque nós, consumidores de notícias, somos ávidos por novidades e exigimos assuntos novos.

Alguém pode dizer que essa “desigualdade esmagadora” é a realidade da história da humanidade, com tendência  a se perpetuar,  pois que chegou até aqui debaixo de grande dilema, o dilema do paradoxo humano, na minha ótica sem solução terrena, da convivência dos dominadores, ricos e poderosos, com os dominados, pobres e miseráveis, e das diferenças entre países de primeiro mundo com países emergentes do terceiro mundo.

Essa é uma verdade inegável, pois o conceito de desigualdade ou estratificação social indica que os homens estão colocados  em posições diferentes no que respeita ao acesso  aos bens sociais a que todos, em geral, aspiram, mas cuja disponibilidade é escassa. Aqui, é necessário frisar a natureza social da desigualdade, de modo que não se confundam desigualdades sociais com desigualdades naturais, porquanto diz uma máxima popular que: “ Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”.

No caso do Estado do Acre, estamos vivendo um fenômeno natural, enchente, que atinge diretamente quem está em patamares sociais desiguais. Quem reside no Ipê não passa pelas mesmas agruras de quem mora no Taquari. No Taquari, sobrevive gente pobre esbulhada;  gente estigmatizado, pelos marqueteiros de políticos profissionais, como pessoas que estão oscilando entre as classes C e D, na hierarquia social dos mais pobres. É gente que está “vivendo” em condições econômicas desesperadoras. Nada contra em morar no Ipê, uma vez que lá estão os que ascenderam as três dimensões essenciais do processo de estratificação social, obviamente que em nível de Acre. As três dimensões, são: riqueza, prestígio e poder.  

Entretanto, a gente que “mora” em localidades como o Taquari, é público, não dispõe de boa infraestrutura, como: água encanada; luz elétrica e; especialmente esgotos.  Pobres inditosos que são constrangidos a conviver com jacarés, cobras, mosquitos da dengue e outros bichos.  Outro lado cruel é que essas localidades servem de verdadeiras cafuas, esconderijos, antros de marginais agregados aos crimes de estupro, atos terroristas, assaltos, drogas e prostituição generalizada.  Assim, o nível de vida dessa gente é sofrível. Estão totalmente vulneráveis, em termos de segurança, e privados de mínimas condições de sobrevivência.

O incrível, por mais estranho que possa parecer, é que em meio a esta agonia, a maioria dos políticos profissionais do Estado do Acre, não deixou um só minuto de fazer politicagem. Com devida isenção dos poderes constituídos, que estão acima da política partidária, a mãe de todas as misérias,  a classe política vive ironizando e  rindo à toa da desgraça alheia. 

Nem o mal advindo da natureza, como  essa enchente terrível dos rios Acre e Madeira se assemelha a maldade desse sistema político perverso que impõe ao mais humilde essa condição de desigualdade, retratando em mais alto grau, a crueldade do homem contra seu semelhante.

Enquanto isso, o Brasil rico e poderoso do Planalto e de seus mais dignos representantes nestas plagas acreanas, segue seu fracassado plano de tentativas paliativas, fruto de um capitalismo ufanista, em extirpar a discrepância existente entre uns poucos privilegiados, que tudo possuem, e os desa-possados, que nada têm. Estes seguem à vida desiludidos em função da falta de políticas publicas por parte de quem de direito. 

Deste modo, cansados de promessas demagógicas, os pobres despojados, só não perderam a esperança total, porque creem em Deus, a quem invocam invariavelmente diuturnamente. Nesta semana ouvi o clamor tocante de uma mulher sofrida do Taquari: “Professor, se Deus quiser, eu saio desta!”

* Francisco Assis dos Santos é pesquisador bibliográfico em humanidades.
E-mail: [email protected]