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Francisco Assis
Francisco Assis dos Santos é filósofo e humanista. Email:[email protected]

Carnaval, futebol e desditas!

Favorecidos pelas comemorações do  Reinado de Momo, a partir de hoje até quarta-feira, ingrata, de cinza estamos em “pleno gozo” de  mais um feriado prolongado.   O festejado evento acontece com o “esplendor” de sempre, em alguns estados, sob os auspícios do erário público. Afinal de contas, carnaval é para o povo, por conseguinte que o povo pague a conta.

Por estas plagas, os governos do Estado e da Capital, em medida sensata bateram o martelo em não promover as comemorações de Carnaval. Decisão ponderada, principalmente, porque seriam empregados recursos consideráveis para o usufruto de três dias de folia, enquanto centenas de famílias de alguns municípios acreanos continuam afetadas pela avassalante enchente deste ano, vivendo a escassez de produtos essenciais.  O dinheiro que é gasto com carnaval, anualmente, pelo poder público pode, muito bem,  ser destinado para auxílio das vítimas dos estragos feitos pelas constantes chuvas. No entanto, é nesse clima nacional de “n” desigualdades que milhares de brasileiros, entorpecidos pela embriaguez dionisíaca, celebram o reino de Momo do jeito que o Diabo gosta.

Enquanto a banda passa, sobejam os reclamos dos que sobrevivem em meio às absurdas desigualdades que assolam este Brasil, de dimensões continentais. Gente da gente, inseridas num contexto de “qualidade de vida” dramática, onde pontifica o analfabetismo, a subnutrição e as moradas impróprias, entre outras disparidades sociais, sem que haja para essas pessoas quase nenhuma oportunidade ou perspectivas de mudança nos seus relacionamentos sociais.

O Acre, por exemplo, localizado nas últimas fronteiras, é reconhecidamente um Estado de pequeno poder aquisitivo, possuia até bem recentemente um alto índice de analfabetismo. Dos 470.975 mil eleitores, da última eleição geral, segundo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Estado, mais de 67 mil (14,3%) não sabiam ler nem escrever. Outros 91 mil eram considerados analfabetos funcionais (19% do eleitorado). “É uma mancha no nossso cadastro eleitoral”, disse à época, o ex-presidente do TRE-Acre, Arquilau de Castro Melo. Na mesma época dessa estatística, o governo acreano vigente, honradamente não mascarou essa situação, trouxe ao conhecimento público que havia pelo  menos 130 mil pessoas em estado de miséria espalhadas no Estado.

O município do Jordão, sabemos, detém um dos mais baixos IDH do Brasil.  Entretanto, essa não é uma realidade exclusiva do Jordão.  A título de ilustração, cito estatística extraída de uma matéria publicada no Correio Braziliense (DF), em dias idos, debaixo do título: Fome – miséria na beira do rio. Destacando, a conjuntura de desventura em que vivem alguns municípios do Estado de Alagoas, a matéria diz que este Estado lidera a lista dos piores IDH do país. No município de Traipu 88,3% da população vive com renda familiar per capita inferior a meio salário mínimo mensal. O índice de analfabetismo de Traipu é de 61%, aproximadamente o quádruplo do percentual de analfabetos do país. O Estado da Bahia é outro exemplo: tem,  entre seus filhos, 2 milhões de pessoas em extrema pobreza; há famílias que sobrevivem com renda financeira mensal de R$ 70,00.

É nesta situação de pobreza e miséria que os governos estaduais, após o carnaval, sediarão a Copa de 2014, aliados ao Governo Federal, com investimento de bilhões de reais, através do Ministério do Esporte, notadamente na construção de estádios suntuosos, entre outras obras faraônicas tendo em vista esse acontecimento de repercussão mundial. Fala-se aos quatro cantos da nação brasileira que esses investimentos e o evento em si trarão divisas ao Brasil e deixará um legado relativo à capacidade de gerar lucros aos brasileiros. Que assim seja!

A Copa de 2014  mostrará ao mundo um falso Brasil ideal, maquiado,  uma vez que o Brasil real é ainda, não se sabe até quando, permeado por uma grande desigualdade urbana e regional. O Brasil real é, infelizmente, o modelo que se nos apresenta o vandalismo nas ruas dos grandes centros urbanos. Instabilidade social que se somam aos bolsões de desditas, notadamente, nos  Estados do Norte e do Nordeste.  Regiões, eternamente, sem isenção dessa praga.

Contudo, há sempre alguém, de plantão,  insinuando que “nem só de pão vive o homem” que é preciso,  uma vez ou outra, um pouco de circo. Acontece que este país é um circo só. O Brasil é um país festeiro.  Vivemos, por aqui, de farras contínuas e, nas folgas, nos deleitamos na cultura de entretenimento burlesca e apelativa, que sufoca e aliena o povo. Negar tal realidade é santa hipocrisia. Do jeito que a coisa caminha, só existem gotas de otimismo de que depois do carnaval não estourarão greves em todos os setores da máquina pública. Até mesmo os filósofos, devem aderir o movimento!

*Pesquisador  Bibliográfico em Humanidades.
E-mail: [email protected]