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Poeta-seringueiro lança CD que gravou com o dinheiro extraído do próprio roçado

Seu Manoel Lourenço - FOTO TIAGO MARTINELLO 2O que tem a cigarra-boiadeira a ver com a imensidão da floresta e um coração-seringueiro solitário? Nas mãos de Manoel Lourenço, o ‘Poe-ta Quinariense’, como ele se autodenomina, tem um vasto significado. Bem-humorado, o cordelista, cartunista, poeta, arranjador e cancioneiro (ufa! Haja fôlego pra tanto talento) é, na vida real, um simples matuto-seringueiro que adora divertir o mundo.

Da poesia, que viaja pelos ‘causos’ de cornos, perpassa pelos lamentos do povo sofrido da floresta e repousa em xaxados misturados ao popular romântico, o Poeta Quinariense lançou o seu primeiro CD, só catando uma moeda aqui e outra acolá e no cabo da enxada.

“Economizei dali, d’acolá e consegui em Manaus quem gravasse pra mim algumas dezenas”. E como conseguiu? No cabo da enxada, como já foi dito. Tirando da sua roça, na estrada Transacreana, onde ele vive até hoje.

A façanha já tinha sido repetida por ele, em 1985, quando gravou um LP, segundo ele, cheio de orgulho, músicas também de Nelson Gonçalves.

De sandálias de borracha carcomidas pelo tempo, blusa de punho esgarçada e mãos calejadas, o Poeta sorri quando lembra que já bebeu cachaça com Abílio Farias, do ‘Pijama e o Chinelo’, algo que o astro fez questão de explicar pessoalmente a ele em que circunstância compôs a canção, no dia em que ambos sentaram juntos num boteco da periferia de Manaus.

“Rapaz, o Abílio estava mesmo desconfiado da mulher. Mas pra mim, nesse dia, ele jurou de pé junto que o pijama e o chinelo tinham sido mesmo presente da amada. E tu, repórter, acredita nisso? (risos)”.

No CD do Poeta, 18 faixas, sendo 16 de sua autoria, a maioria de marchinhas, cujo tema é a Copa do Mundo deste ano. Diz que não quer ganhar dinheiro, mas se alegrar algumas poucas pessoas já estará feliz.

Quanto à cigarra-boiadeira, fez questão de dar uma palinha na Redação: “aquela cigarra, quando lá do alto, começa a cantar, eu perdido no meio da selva, de saudade, começo a chorar”. Um autêntico lamento seringueiro musicalizado, que retrata a vida difícil de pessoas incríveis como é o Seu Manoel Lourenço, o Poeta Quinariense.

Ihh, já íamos esquecendo: quem quiser apreciar as canções do magnífico CD pode entrar em contato com Cíntia Lourenço, pelo celular 9905-4662. Ela mora na cidade. (Foto: Tiago Martinello/ A GAZETA)