Isso é o … Madeira

Ter senso crítico é uma coisa. Mas levar ao pé da letra os jargões filosóficos e revolucionários de que devemos ser críticos na vida não quer dizer que tudo merece nossas ferrenhas ponderações. Alguns eventos acontecem. Seguem uma ordem natural iminente, às vezes imprevisível e que se sucedem fora do alcance da ação humana. Imutáveis. É simples assim.

O Acre vive hoje um momento de crise e isolamento. Já ficamos ilhados antes, mas nunca nesta magnitude. Nunca por tanto tempo. Fatos. O motivo: em um fenômeno inegável e inteiramente atípico, o Rio Madeira transbordou. Encheu além da conta, a um nível jamais imaginável nas histórias de Rondônia ou até mesmo do Acre. Um acontecimento, seguido de uma consequência.

Pode-se contestar todas as variantes prévias deste trágico episódio que vivemos. Contraposições do tipo: por que não construíram uma ponte alta no trecho do Rio Abunã da BR-364? Por que o rio encheu tanto em Rondônia? Por que construíram usinas hidrelétricas que poderiam mexer com o curso natural do Madeira? Todas são questões válidas. Mas os fatos são incontroversos.

O rio encheu. A estrada, a BR-364, ficou inundada, perigosa demais para o tráfego de veículos. Assim, acabou o acesso terrestre para o Acre. Essa é a história. Sem mais, nem menos.

Tolos são aqueles que perdem seu tempo fazendo uso dos fatos, deste momento, para montar mirabolantes argumentos de cunho pessoal ou politiqueiros. Digo isso porque já tem gente por aí dizendo que a cheia é uma ‘revolta de Deus’ pela Justiça do Acre ter bloqueado a Telexfree. Ou que é uma forma de os empresários jogarem os preços de produtos lá pra cima. Uma justificativa maqueada para a presidenta Dilma Rousseff visitar RO e o Acre; ou que é um pretexto do PT para se promover como ‘salvador’ dos ‘isolados’ do Acre e captar votos.

Pior ainda é forçarem estas teorias baratas para a opinião pública!

Haja paciência. Como raios um assunto jurídico com uma empresa, estratégias empresariais ou política poderiam encher um rio inteiro? Beira o ridículo. O rio enche porque obedece às suas leis naturais. Não por castigo divino, não por fins comerciais e nem por interesses da ‘jogatina’ política acreana ou nacional. Nada disso o faz ganhar 1 mm. Os metros e mais metros que não param de se acumular no rio rondoniense são devido a chuvas atípicas. Isso é o Madeira. Rios não se curvam às meras vontades humanas. Não funciona assim.

De uma vez por todas, nós, acreanos, devemos aprender a distinguir senso crítico de alienação, de fanatismo. Criticar é uma coisa. É um exercício saudável e necessário para a democracia. Forçar associações infundadas de acontecimentos, por puro oportunismo pessoal, já é outra coisa bem diferente do ato de criticar.

* Tiago Martinello é jornalista.
E-mail: [email protected]

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